A Universidade Federal do Paraná (UFPR) lançou oficialmente a Cátedra Unesco BeOne – Conexão Natureza e Cultura, uma iniciativa inédita focada na integração entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais para a conservação socioambiental do litoral do Paraná. A parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) visa fortalecer a pesquisa, o ensino e o engajamento comunitário na região, considerada um importante remanescente da Mata Atlântica.
O projeto é liderado pelo Laboratório Ecologia e Conservação (LEC) e pelo Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb), ambos da UFPR. O objetivo central é desenvolver um modelo de atuação que promova a sustentabilidade e a preservação de ecossistemas e culturas locais, abordando os desafios socioambientais de forma colaborativa.
A área de atuação prioritária compreende as Reservas da Mata Atlântica do Sudeste, um sítio reconhecido internacionalmente pela Unesco. Esta região abriga uma expressiva biodiversidade, além de comunidades com ricas tradições culturais e importantes atividades econômicas e sociais, o que a torna um laboratório vivo para estudos interconectados.
A professora Camila Domit, coordenadora da Cátedra, enfatiza a importância da articulação entre as diversas linhas de pesquisa da UFPR para consolidar uma visão territorial integrada. “A ideia é unir cultura e natureza, buscando soluções para um desenvolvimento mais justo e pensando no futuro que queremos para a região”, declarou.
Um dos pilares da Cátedra é a ciência aberta e inclusiva. A iniciativa busca criar pontes entre a produção acadêmica e os conhecimentos de pescadores, quilombolas, caiçaras e demais moradores que detêm um saber profundo sobre o território. Essa aproximação visa garantir que todas as vozes sejam ouvidas e consideradas nas decisões que afetam o litoral paranaense.
Eduardo Vedor de Paula, vice-coordenador, ressalta que a UFPR já atua na região em diversas frentes, incluindo a mediação de conflitos relacionados ao uso do solo e recursos naturais. A parceria com a Unesco tem o potencial de amplificar o papel da universidade como mediadora e facilitadora de diálogos.
“A universidade tem um papel fundamental em mediar esses conflitos e promover o diálogo entre os diferentes atores sociais que compartilham o mesmo espaço”, afirmou de Paula. Ele adiantou que futuras ações incluirão maior aproximação com as comunidades tradicionais e a divulgação do reconhecimento internacional da região como Patrimônio Mundial.
Potencial de Transformação Socioambiental
A Cátedra BeOne prevê um intercâmbio contínuo entre a comunidade acadêmica, gestores públicos e a sociedade civil. A intenção é que a produção de conhecimento resulte em ações concretas e eficazes, impactando positivamente o cotidiano das populações e a gestão ambiental.
A vice-reitora da UFPR, Camila Fachin, celebrou a iniciativa como um marco na capacidade da universidade de construir redes de cooperação com projeção global. “Queremos uma UFPR conectada às agendas globais, mas que mantenha suas raízes fincadas no território e nas necessidades da sociedade brasileira”, destacou Fachin.
António Abeu, representante da Unesco, sublinhou o potencial da Cátedra em fomentar a colaboração e a busca por soluções inovadoras para os desafios socioambientais. A integração de diferentes setores, como gestores, políticos e jovens, é vista como essencial para transformar resultados de pesquisa em benefícios tangíveis.
O deputado estadual Goura Nataraj destacou a importância da articulação entre ciência e políticas públicas para a preservação de áreas sensíveis como as baías e a Mata Atlântica. “Diante das intensas mudanças climáticas, ter a universidade como norte para as políticas públicas é essencial”, declarou o parlamentar.
Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, ressaltou o valor global das Reservas da Mata Atlântica do Sudeste e o papel da Cátedra em fortalecer a gestão desse patrimônio. A ideia é que a iniciativa também impulsione a mobilização social em prol da conservação.
Fortalecendo Redes de Conhecimento e Ação
As cátedras, como a recém-criada, são instrumentos de cooperação acadêmica que visam unir universidades, pesquisadores e parceiros em torno de temas estratégicos. Elas funcionam como polos de produção, disseminação e aplicação de conhecimento, abrangendo pesquisa, ensino e formação continuada.
A UFPR já possui outras cátedras que abordam temas diversos, como refugiados (Cátedra Sérgio Vieira de Mello), estudos de língua e cultura portuguesa (Cátedra Camões José Saramago), primeiras infâncias e suas políticas públicas (Cátedra Miguel Otávio Santana da Silva), e desenvolvimento territorial sustentável (Cátedra Araucária).
O retorno da UFPR ao programa de Cátedras Unesco, que conta com mais de 700 iniciativas globais, demonstra um compromisso renovado com a cooperação internacional e a abordagem de questões urgentes. A expectativa é que a Cátedra BeOne contribua significativamente para a identificação de novos sítios de interesse socioambiental e para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências científicas e saberes locais.
Fábio Eon Soares, da Unesco Brasil, enfatizou a importância da nova cátedra para ampliar redes de intercâmbio universitário. “Nosso objetivo é fortalecer essa colaboração acadêmica e científica, auxiliando o governo brasileiro na identificação de áreas prioritárias e na realização de estudos que apoiem o desenvolvimento sustentável do país”, afirmou.






