Uma nova espécie de molusco fóssil, batizada de Actinopteria grahni, foi identificada a partir de um exemplar de 400 milhões de anos encontrado em Ponta Grossa, no Paraná. A descoberta, detalhada em publicação recente na revista científica Historical Biology, expande o conhecimento sobre a vida pré-histórica na região e reforça a importância de sítios paleontológicos locais. A pesquisa é fruto do trabalho de acadêmicos da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e colaborações externas.
O achado ocorreu em um sítio conhecido desde os anos 1980 por sua riqueza em fósseis, localizado no Jardim Giana, popularmente chamado de Curva 2. A identificação de uma nova espécie representa um avanço significativo na paleontologia, permitindo uma compreensão mais aprofundada da biodiversidade e dos ecossistemas que existiam no período Devoniano.
O processo de pesquisa e publicação levou aproximadamente um ano e meio. A equipe, liderada pelo professor Elvio Pinto Bosetti e pelo doutorando Kevin William Richter, ambos da UEPG, contou com a expertise de pesquisadores do Museu Nacional (UFRJ) e da Unesp de Bauru. A colaboração interdisciplinar foi fundamental para a análise taxonômica e contextualização geográfica da nova espécie.
A evolução da pesquisa e a expansão do conhecimento
A busca inicial pelo Actinopteria grahni surgiu de um interesse em aprofundar o estudo de espécies do mesmo gênero já conhecidas na região, como o Actinopteria langei. Durante uma expedição de campo, o aluno Kevin Richter coletou amostras adicionais, entre as quais um espécime que, após análise por especialistas, revelou características distintas, confirmando-o como uma nova espécie.
Essa descoberta é um testemunho da persistência e da rigor científico. O professor Elvio Bosetti ressalta que, embora a sorte desempenhe um papel na descoberta de espécimes raros, o conhecimento prévio sobre onde procurar e a expertise para identificar particularidades são essenciais. O grupo de pesquisa Palaios, ao qual os autores pertencem, tem 26 anos de atuação em paleontologia estratigráfica.
Os primeiros registros de moluscos do gênero Actinopteria na região datam da década de 1960, com trabalhos do paleontólogo Setembrino Petri. A adição do Actinopteria grahni ao registro fóssil não apenas aumenta o número de exemplares conhecidos, mas também aprimora a compreensão sobre os padrões de dispersão de espécies entre diferentes bacias sedimentares.
Sob a perspectiva paleoecológica, o estudo sugere que essas espécies habitavam ambientes marinhos rasos, onde se enterravam parcialmente no substrato. As adaptações morfológicas observadas na nova espécie são indicativas de suas interações com esse tipo de paleobiente. A análise comparativa detalhada da concha, incluindo contornos, aurículas e ornamentação radial, permitiu diferenciar o Actinopteria grahni de outras espécies brasileiras.
Um legado honrado e perspectivas futuras
O nome científico Actinopteria grahni foi escolhido em homenagem ao professor sueco Carl Yngve Grahn, que faleceu em 2025. Grahn foi uma figura chave em estudos de bioestratigrafia no Brasil, com contribuições notáveis, especialmente na Escarpa Devoniana do Paraná. Sua colaboração com a UEPG por duas décadas foi crucial para inserir a pesquisa brasileira no cenário internacional, justificando a homenagem póstuma.
A descoberta abre caminhos para futuras investigações. A equipe planeja retornar ao sítio paleontológico na esperança de encontrar mais exemplares de Actinopteria grahni e outras espécies. O objetivo é incentivar que instituições e pesquisadores reavaliem coleções existentes, pois a ciência é um processo contínuo de revisão e aprimoramento.
Além do avanço científico, a pesquisa paleontológica na região pode ter implicações práticas. O conhecimento detalhado sobre os mares antigos e as formações geológicas associadas é fundamental para a exploração de recursos como o gás natural. A identificação de áreas com matéria orgânica, frequentemente associada a ambientes marinhos preservados, pode otimizar custos e aumentar a eficiência na prospecção de jazidas de petróleo e gás.






