A formação de cidadãos conscientes no trânsito é um pilar fundamental para a redução de acidentes e a promoção de uma mobilidade mais segura e humana. Iniciativas educacionais que combinam teoria e prática, adaptadas às diferentes faixas etárias e realidades, demonstram um impacto significativo na construção de uma cultura viária responsável.
No Paraná, um programa com mais de cinco décadas de atuação tem se consolidado como referência nacional. A Escola Prática Educativa de Trânsito (EPET), vinculada ao Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR), transcende a mera instrução sobre leis e sinalização.
O objetivo central é internalizar a importância do respeito às regras e a valorização da vida no trânsito, criando laços afetivos e memórias duradouras sobre segurança viária.
Cidades Mirins: Um Laboratório para a Vida
As chamadas “cidades mirins” representam o coração pedagógico da EPET. Nesses espaços em miniatura, com ruas, semáforos e sinalização completa, crianças, especialmente do 5º ano do Ensino Fundamental, vivenciam o cotidiano do trânsito de forma simulada. A experiência abrange os papéis de pedestres, ciclistas e futuros condutores.
A faixa etária entre 9 e 11 anos foi escolhida estrategicamente. Nesta fase, os jovens começam a adquirir maior autonomia e mobilidade desacompanhada, tornando crucial a internalização de comportamentos seguros.
O método pedagógico é dividido em duas fases: uma preparação em sala de aula nas próprias escolas, com material didático fornecido pelo DER/PR, seguida por uma imersão prática nas instalações da EPET. Lá, debates, arte-educação e vivências em ruas simuladas moldam a compreensão dos alunos.
Veículos adaptados, como minicarros elétricos e triciclos, garantem uma experiência mais realista e inclusiva, permitindo que todas as crianças, independentemente de suas características físicas, participem ativamente.
A filosofia que norteia essas atividades se concentra nos “quatro Vs”: Vidas, Veículos, Vias e Valores. Essa abordagem sistêmica visa a sensibilização para a interconexão de todos os elementos que compõem o trânsito.
A coordenadora-chefe de Educação de Trânsito, Daniela Koteski, ressalta a importância de aprender “convivendo em comunidade”, pois essa troca social é fundamental para internalizar a cidadania no trânsito. A emissão de uma “Certificação de Pedestre” ao final do curso simboliza a primeira carteira de habilitação, um marco na responsabilidade e no desenvolvimento de uma consciência cidadã desde cedo.
Ações Abrangentes e Legado Duradouro
A atuação da EPET vai além das escolas. O programa estende suas atividades a uma ampla gama de públicos, incluindo idosos, pessoas com deficiência, comunidades indígenas e crianças de diversas faixas etárias. Palestras em creches, intervenções em praças públicas e capacitação para motoristas profissionais integram o calendário anual de ações.
Campanhas como o Maio Amarelo e a Semana Nacional de Trânsito também recebem o engajamento da escola, reforçando seu compromisso com as diretrizes nacionais de segurança viária, alinhadas ao Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans).
Um exemplo notável da abrangência e do impacto social da EPET é a campanha “De Lacre em Lacre”. Este projeto socioambiental incentiva a arrecadação de lacres de latinhas de alumínio, que, ao serem convertidos em cadeiras de rodas, beneficiam vítimas de sinistros de trânsito em reabilitação e instituições de saúde. Até o momento, mais de 50 cadeiras de rodas foram doadas, evidenciando o poder da mobilização comunitária e da empatia.
Fundada em 1975, a EPET Curitiba foi pioneira no Brasil ao introduzir o conceito de cidade mirim para educação prática de trânsito. Seu legado é reconhecido internacionalmente, com premiações como a Medalha de Ouro em um concurso global de segurança viária em Genebra, na Suíça, em 1978. Reconhecimentos posteriores, como o Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito e o XIII World Meeting da International Road Federation, consolidaram sua posição como um modelo de sucesso em educação viária.
O instituto Selo Social também conferiu certificações de Prata e Ouro entre 2006 e 2019, atestando o impacto comunitário e a inclusão de populações vulneráveis. A expansão do programa com cinco unidades em operação e o plano de reabertura de uma unidade em Francisco Beltrão demonstram a continuidade e a relevância desta iniciativa para a formação de um trânsito mais seguro e humano em todo o estado.






