Uma grave crise humanitária se desdobra na Venezuela após um devastador terremoto, com impactos profundos e imediatos na infraestrutura de saúde e nos profissionais que atuam na linha de frente. Segundo relatos, metade dos profissionais de saúde na região de La Guaira, uma das mais afetadas, sofreu diretamente as consequências do desastre, incluindo perdas materiais, ferimentos e, em alguns casos, desaparecimento. Essa situação agrava um cenário já fragilizado, com projeções indicando uma prolongada crise de saúde no país.
A Federação do Colégio de Profissionais de Enfermagem da Venezuela, cujas instalações foram parcialmente destruídas, solicitou apoio internacional para lidar com as consequências do evento sísmico. Em resposta, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) do Brasil iniciou uma série de ações de cooperação técnica, com foco no suporte psicossocial e no mapeamento das necessidades dos profissionais de enfermagem venezuelanos atingidos. A iniciativa visa fortalecer a capacidade de resposta local sem envolver diretamente a prestação de cuidados à população afetada pelos tremores.
A emergência gerou um fluxo de trabalho intenso para os profissionais de saúde remanescentes. Em Caracas, por exemplo, o Colégio de Enfermagem tem funcionado como um centro de arrecadação, com cerca de 300 enfermeiros voluntários atuando em hospitais de campanha. Esses profissionais, submetidos a rodízios a cada três dias, têm sido deslocados para La Guaira, o epicentro da crise, onde a necessidade é mais premente.
A magnitude da devastação levanta sérias preocupações quanto à gestão de resíduos e entulhos, um desafio logístico e sanitário de grande proporção. A atuação das equipes de Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas (USAR) é crucial para a fase inicial, mas o planejamento de longo prazo para a recuperação da infraestrutura de saúde e a atenção a pacientes que necessitarão de cirurgias e reabilitação se apresenta como um obstáculo complexo.
Mapeamento e Suporte Psicossocial como Prioridades
Uma das primeiras e mais urgentes demandas apresentadas pelas entidades venezuelanas foi a necessidade de um levantamento detalhado dos profissionais de enfermagem afetados. Um mapeamento preliminar já indicou que cerca de 400 profissionais tiveram suas residências danificadas, sofreram perdas materiais significativas ou tiveram suas atividades de trabalho interrompidas.
Em resposta a essa carência, o Cofen desenvolveu uma ferramenta, o formulário SOS Venezuela, inspirado em metodologias previamente aplicadas em crises no Brasil. O objetivo é identificar com precisão os trabalhadores de saúde atingidos, catalogar suas necessidades mais imediatas e oferecer subsídios para o planejamento de ações de apoio humanitário. Essa estratégia de mapeamento é fundamental para otimizar a distribuição de recursos e direcionar os esforços de ajuda.
Além do suporte material e logístico, o Cofen está implementando um programa de acolhimento em saúde mental. Especialistas em saúde mental, fluentes em espanhol, já foram cadastrados e estão prontos para oferecer apoio emocional e escuta qualificada aos profissionais de enfermagem que enfrentam o trauma e a sobrecarga decorrente da catástrofe. Este programa, denominado “Enfermagem Solidária”, já havia sido iniciado durante a pandemia de COVID-19 e agora se mostra essencial em um cenário de reconstrução física e emocional.
Solidariedade Internacional e Reconstrução da Capacidade Sanitária
A iniciativa brasileira de apoio à Venezuela reflete uma compreensão profunda dos desafios enfrentados pelos profissionais de saúde em situações de desastre. A cooperação técnica proposta busca, sobretudo, fortalecer a capacidade de resposta local, capacitando as entidades venezuelanas a gerenciarem a crise com seus próprios recursos, uma vez que as condições permitam.
A Venezuela, que em momentos anteriores demonstrou solidariedade ao enviar oxigênio hospitalar para o Brasil durante a pandemia, agora se encontra em uma posição de necessidade. O envolvimento do Cofen, em colaboração com a Federação Panamericana dos Profissionais de Enfermagem (Feppen), evidencia um compromisso com a resiliência do sistema de saúde da região e com a valorização do papel insubstituível dos enfermeiros em qualquer cenário de crise.
O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) reafirmou seu compromisso com o povo venezuelano, reconhecendo a resiliência e o espírito humanitário dos profissionais de enfermagem que, apesar das adversidades pessoais e da destruição em massa, mantêm-se dedicados à assistência à população. A colaboração estabelecida visa não apenas o auxílio emergencial, mas também a construção de bases sólidas para a recuperação e o fortalecimento do setor de saúde no país vizinho.

