Mortalidade materna revela abismo social no Brasil

🕓 Última atualização em: 28/05/2026 às 09:21

No Brasil, as mortes maternas continuam a ser uma preocupação persistente, com dados recentes indicando que 1.192 mulheres perderam suas vidas em 2025 devido a causas diretamente ligadas à gravidez e ao parto. Essa estatística alarmante, divulgada pelo Painel de Monitoramento da Mortalidade Materna do Ministério da Saúde, sugere uma subnotificação significativa, considerando que apenas uma fração das 68.888 mulheres em idade fértil que faleceram naquele ano teve a causa provável de óbito registrada. A análise desses números revela um panorama de profunda desigualdade, com mulheres de menor renda, adolescentes, mulheres negras e residentes em áreas rurais enfrentando riscos consideravelmente maiores.

A complexidade na redução da mortalidade materna é um reflexo direto da necessidade de uma reforma profunda nos modelos de assistência ao parto. Essa mudança de paradigma busca reavaliar não apenas as práticas assistenciais, mas também a formação dos profissionais de saúde, colocando a mulher e suas necessidades no centro do processo.

A busca por um parto normal mais humanizado e com menor incidência de complicações, como hemorragias, infecções e eventos tromboembólicos, é um dos pilares dessa reforma. Profissionais da enfermagem obstétrica destacam que um modelo de cuidado centrado na mulher resulta em uma recuperação pós-parto mais rápida e na diminuição de desconfortos respiratórios em recém-nascidos.

As principais causas de morte materna no país incluem síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e abortos inseguros. A atuação preventiva dos profissionais de saúde, desde a Atenção Primária, é crucial. A identificação precoce de riscos e a implementação de medidas preventivas, como a suplementação de cálcio durante a gestação, podem reduzir significativamente a mortalidade por condições como a pré-eclâmpsia.

A importância da informação e da humanização no cuidado

A disseminação de informação qualificada para gestantes e profissionais é vista como um fator determinante para a redução da mortalidade materna. A enfermagem obstétrica advoga há tempos por um cuidado baseado em evidências, que respeite a autonomia da mulher e valorize todas as etapas do ciclo reprodutivo.

A introdução de ferramentas como a nova Caderneta Brasileira da Gestante representa um avanço significativo nesse sentido. Este instrumento, que deve ser utilizado ativamente nas unidades de saúde, visa integrar o cuidado, promovendo o diálogo entre a gestante, a família e a equipe de saúde. O foco se estende desde o pré-natal até o puerpério, abrangendo também a saúde mental e o combate a todas as formas de violência.

Garantir que essa caderneta seja uma ferramenta viva de acompanhamento, e não apenas um documento burocrático, é o grande desafio. A integração da caderneta no aplicativo Meu SUS Digital facilita o acesso e a atualização das informações, fortalecendo o vínculo entre os usuários e o sistema de saúde.

O movimento pela Reforma Obstétrica conta com o apoio de diversas entidades representativas da área da saúde e de movimentos sociais, como a Associação Brasileira de Enfermagem Obstétrica (Abenfo), a ReHuNa, a União Brasileira de Mulheres (UBM) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Desafios e perspectivas para o futuro

A persistência da mortalidade materna no Brasil exige uma abordagem multifacetada. A garantia de acesso equitativo aos serviços de saúde, a capacitação contínua dos profissionais e a promoção de políticas públicas que combatam as desigualdades sociais são fundamentais para alcançar o objetivo de reduzir drasticamente essas perdas.

Investir em programas de educação em saúde para gestantes, incentivando a participação ativa nos cuidados e o conhecimento sobre seus direitos, é uma estratégia de longo prazo para empoderar as mulheres e melhorar os resultados de saúde materna. A articulação entre diferentes setores da sociedade civil e o poder público é essencial para consolidar avanços e garantir que cada gravidez seja uma experiência segura e positiva.

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