Profissionais de Enfermagem enfrentam uma onda crescente de violência em ambientes de saúde, com relatos alarmantes de agressões verbais e físicas que impactam diretamente o bem-estar e a segurança no trabalho. A triagem, porta de entrada para o atendimento em unidades de saúde, tem se tornado um palco de tensões, onde a classificação de risco, seguindo protocolos como o de Manchester, pode inadvertidamente desencadear conflitos. A banalização desses atos, muitas vezes enquadrados como “parte do trabalho”, ignora o profundo sofrimento psicológico e físico que causam. Dados recentes indicam que a maioria dos enfermeiros já vivenciou algum tipo de violência no ambiente profissional, sendo a agressão verbal a mais recorrente, seguida pela psicológica e, em menor, mas preocupante escala, pela física.
A gravidade do problema é evidenciada por casos como o da enfermeira Gisella Pereira, em Brasília, que sofreu agressões físicas durante um atendimento no Hospital Regional de Samambaia. O episódio ocorreu após a paciente, insatisfeita com a orientação de buscar uma unidade de atenção primária devido à lotação da emergência clínica, iniciar uma gravação não autorizada e, em seguida, agredir Gisella com tapas e socos no rosto. A rápida intervenção de colegas e vigilantes interrompeu o ataque, mas os danos psicológicos e a sensação de insegurança perduram.
Em São Paulo, a enfermeira Magali Peres relata ter sofrido ameaças verbais graves enquanto realizava a classificação de risco em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A mãe de um adolescente atendido, inconformada com a classificação de gravidade “verde”, proferiu insultos e ameaças de agressão física. Apesar de Magali ter mantido o profissionalismo e não ter interrompido o atendimento, o incidente desencadeou crises de ansiedade que a afetam até hoje, gerando angústia e receio ao retornar à triagem, mesmo após registrar a ocorrência e considerar a possibilidade de transferência.
O impacto da violência na prática profissional e na saúde mental
A exposição contínua a situações de violência, mesmo quando não resulta em agressão física direta, cobra um preço alto da saúde mental dos profissionais. Magali Peres descreve a persistência de sintomas como disparos no coração e angústia, que prejudicam seu desempenho e bem-estar no ambiente de trabalho. A sensação de impotência e a naturalização da violência por parte de alguns colegas agravam o quadro, criando um ciclo vicioso de sofrimento e insegurança.
O receio de retaliação e a dificuldade em encontrar rotas de fuga seguras em salas de triagem sobrecarregadas intensificam a sensação de vulnerabilidade. A falta de recursos de segurança, como botões de pânico acessíveis a todos os profissionais da linha de frente, também contribui para o clima de insegurança. A falta de ação efetiva, muitas vezes, leva à sensação de que o problema não é uma prioridade, perpetuando a exposição dos trabalhadores.
O caso de Gisella Pereira ilustra a brutalidade que a violência verbal pode escalar. A agressão física sofrida, segundo seu relato, foi inesperada e violenta, deixando marcas visíveis e profundas cicatrizes emocionais. A experiência impactou não apenas a enfermeira, mas também sua família, que testemunhou seu sofrimento e ferimentos, intensificando a dor e a sensação de injustiça. A divulgação pública de seu caso visa encorajar outras vítimas a se manifestarem e a não permanecerem em silêncio.
Ações de combate e o papel dos Conselhos Regionais
Diante desse cenário alarmante, os Conselhos Regionais de Enfermagem (Corens) têm intensificado seus esforços em campanhas de conscientização e na criação de comissões dedicadas ao enfrentamento da violência contra profissionais. A Comissão de Enfrentamento à Violência do Coren-SP, por exemplo, busca oferecer acolhimento, orientação e acompanhamento aos profissionais vítimas de agressões, reforçando a mensagem de que ninguém deve passar por essa situação sozinho.
Levantamentos realizados pelos Conselhos têm demonstrado uma pequena redução na incidência de violência em algumas regiões, o que pode ser atribuído às ações de mobilização e conscientização. No entanto, os números ainda são expressivos, e a luta pela erradicação da violência no ambiente de trabalho continua sendo uma prioridade. A meta é clara: garantir que cada profissional se sinta seguro e respeitado em seu ambiente de atuação.
A responsabilidade de denunciar e buscar reparação é crucial. Em casos de agressão física, o registro de Boletim de Ocorrência (BO) e o contato com a chefia e o Coren são os primeiros passos. Para ameaças e agressões verbais, o BO, inclusive online, e o desagravo público oferecido pelos Conselhos são ferramentas importantes. Os Conselhos atuam ativamente na cobrança de medidas do poder público, no diálogo com legisladores e executivos e na promoção de leis que protejam os profissionais, além de campanhas de sensibilização para a sociedade.
Iniciativas como a campanha “Marcas da Enfermagem”, lançada pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), buscam unir a sociedade civil em defesa dos profissionais de saúde. A campanha visa dar voz às vítimas, sensibilizar a população sobre a gravidade do problema e pressionar por medidas concretas. A mensagem é inequívoca: a dedicação dos profissionais ao cuidado da saúde não pode, em hipótese alguma, ser justificada ou tolerada como justificativa para a violência que sofrem.

