PL restringe prática de profissionais Cofen e CFP pedem arquivamento

🕓 Última atualização em: 11/06/2026 às 22:03

Um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional tem gerado debates acirrados entre os Conselhos Profissionais de Enfermagem (Cofen) e Psicologia (CFP) sobre a exclusividade na prática da psicoterapia. O PL 2386/2023, em sua versão mais recente, propõe que a psicoterapia seja restrita a psicólogos e a médicos com especialização em psiquiatria, o que, segundo as entidades de enfermagem, ameaça a atuação de profissionais com formação específica e experiência comprovada na área de saúde mental.

A proposta legislativa levanta preocupações sobre a potencial restrição do acesso a cuidados psicossociais, especialmente em um contexto de crescente demanda por esses serviços no Brasil. A Enfermagem, com sua vasta atuação em atenção primária e saúde mental, alega que a aprovação do PL, sem as devidas ressalvas, poderia desconsiderar a contribuição significativa desses profissionais.

Representantes do Cofen e do CFP se reuniram para discutir as implicações do projeto. O foco principal da enfermagem reside na preservação da autonomia profissional e na garantia de que enfermeiros capacitados continuem a oferecer suporte psicoterapêutico, conforme permitido pela legislação vigente. A Lei nº 7.498/86, que regulamenta o exercício da Enfermagem, já estabelece o escopo de atuação desses profissionais, incluindo ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação em saúde mental.

A enfermagem argumenta que a formação complementar e a experiência clínica permitem que muitos enfermeiros desenvolvam competências essenciais para a prática psicoterapêutica, atuando de forma ética e integrada a equipes multiprofissionais. Restringir essa prática a apenas duas categorias profissionais poderia criar um gargalo no atendimento, impactando negativamente a cobertura e a qualidade do cuidado em saúde mental.

O cerne da controvérsia

A discussão gira em torno da definição de psicoterapia e de quem está apto a exercê-la. Enquanto o CFP defende a regulamentação da psicoterapia como uma prática intrinsecamente ligada à formação do psicólogo, o Cofen busca assegurar que enfermeiros com formação específica não sejam impedidos de atuar. A proposta do Cofen para alterar o PL sugere que profissionais de saúde de nível superior, com capacitação técnica e respeitando os limites éticos e legais, possam realizar o cuidado psicoterapêutico.

Essa visão se alinha com a necessidade de uma abordagem multidisciplinar em saúde mental, onde a colaboração entre diferentes profissionais é fundamental. A preocupação é que a aprovação do PL, na forma como foi apresentado, possa fragmentar o cuidado e dificultar o acesso da população a serviços essenciais, especialmente em regiões com carência de especialistas.

A defesa do Cofen baseia-se na premissa de que a saúde mental é um campo amplo e que diversas profissões da saúde, com as devidas qualificações, podem e devem contribuir para o bem-estar psicossocial dos indivíduos. A intenção não é invadir competências, mas sim reconhecer e legitimar a atuação de profissionais que já desempenham um papel crucial no cuidado psicoterapêutico.

Diálogo e consenso emergente

Diante das divergências e da complexidade do tema, um consenso começou a se formar entre os conselhos. A possibilidade de arquivamento do PL 2386/2023 foi levantada como uma medida para evitar conflitos e prejuízos à atuação profissional. A ideia é buscar um caminho de diálogo para a construção de alternativas que contemplem os interesses da sociedade e das profissões regulamentadas.

As entidades planejam unir esforços para elaborar um material informativo conjunto. Este documento visa esclarecer e orientar a atuação da enfermagem e da psicologia no campo da psicoterapia, promovendo o respeito mútuo e a colaboração. A iniciativa busca definir claramente os limites de atuação de cada categoria, garantindo um cuidado de qualidade e sem sobreposições de competências.

Essa colaboração entre o Cofen e o CFP reflete a importância da articulação institucional para a defesa das profissões e para a promoção de políticas públicas de saúde mental mais eficazes e inclusivas. A expectativa é que, a partir dessa interlocução, sejam criadas bases sólidas para o desenvolvimento de práticas terapêuticas que beneficiem toda a população brasileira.

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