Arqueólogo explora caminhos históricos da Serra do Mar com métodos de Indiana Jones

🕓 Última atualização em: 11/06/2026 às 21:48

Um mergulho nas profundezas da história paranaense revela a fascinante trajetória do arqueólogo Julio Cesar Telles Thomaz, 63 anos, cuja paixão pela descoberta de vestígios do passado o levou a desvendar os segredos de caminhos históricos como o Itupava. Longe das caricaturas hollywoodianas, Thomaz personifica a dedicação e o rigor científico da arqueologia, uma ciência que se dedica a compreender a trajetória humana através da análise de sua cultura material.

Nascido em Arapongas, no norte do Paraná, Thomaz estabeleceu raízes em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, onde sua família se formou e onde a arqueologia, para ele, se apresentou de forma inusitada. A jornada para se tornar um pesquisador do passado começou não em salas de aula especializadas, mas em meio à natureza exuberante da Serra do Mar.

A identificação com a terra e suas narrativas latentes é o cerne da sua atuação. Thomaz se define, primeiramente, como um “mateiro”, um conhecedor profundo das trilhas e ecossistemas. Foi essa intimidade com o ambiente que o guiou para descobertas que, posteriormente, se tornariam o ponto de partida para sua carreira acadêmica.

O fascínio pela arqueologia emergiu durante suas explorações no Caminho do Itupava, uma rota ancestral que conecta o Primeiro Planalto paranaense à Planície Litorânea. Durante acampamentos, que se tornaram uma prática frequente desde o início dos anos 1980, Thomaz se deparou com um cenário inesperado: o solo repleto de fragmentos de garrafas antigas, datando dos séculos XVIII e XIX.

Esses achados, inicialmente curiosidades pessoais, logo despertaram o interesse acadêmico. Thomaz passou a levar os artefatos, em particular os fundos de garrafas de origens diversas (portuguesa, inglesa, francesa, belga), para o Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (Cepa) da UFPR, sob a orientação do professor doutor Igor Chmyz. Essa iniciativa transformou-se em um convite para estagiar, marcando o início formal de sua jornada na arqueologia.

A Contribuição dos Estranhos Artefatos

Os objetos encontrados por Julio Thomaz nos acampamentos do Itupava não eram meros resíduos; eram evidências concretas de ocupações humanas passadas. As garrafas, provenientes de diferentes nações europeias, indicavam a intensa circulação e o comércio que outrora ocorriam na região, conectando o interior do Paraná ao litoral e, por extensão, ao mundo.

Essa descoberta fortuita em uma área que, ele viria a saber, servia como um antigo ponto de pouso no Caminho do Itupava, ilustra a importância da arqueologia de superfície e da observação atenta do ambiente. Cada fragmento coletado representava uma peça de um quebra-cabeça histórico, convidando à reconstrução de narrativas esquecidas.

A profissionalização na área, que na época de Thomaz não contava com graduação específica, exigia formação em campos como História, Geologia ou Geografia. Atualmente, a oferta de cursos superiores e de pós-graduação em arqueologia é significativamente maior, refletindo o amadurecimento e a relevância da disciplina no cenário acadêmico brasileiro.

A vasta maioria dos arqueólogos no Brasil, incluindo Thomaz, atua em estudos de impacto ambiental. A legislação brasileira exige a avaliação arqueológica em projetos de infraestrutura ou obras que possam afetar o patrimônio histórico e cultural, garantindo que as descobertas sejam documentadas e preservadas antes do desenvolvimento.

É fundamental compreender que a arqueologia se debruça sobre a cultura material da humanidade. Ao contrário da paleontologia, que estuda fósseis de organismos extintos, os arqueólogos focam em artefatos, estruturas e outros vestígios criados e utilizados por seres humanos ao longo do tempo.

A metodologia arqueológica envolve, primordialmente, a interpretação desses vestígios. Como afirma Julio Thomaz, “a gente tem que fazer os objetos falarem”. Isso implica em um trabalho minucioso de pesquisa de campo, escavações, coleta de dados, seguida por extensa pesquisa bibliográfica e laboratorial, a fim de contextualizar os achados e reconstruir a complexidade das sociedades passadas.

O Legado dos Caminhos Históricos da Serra do Mar

A dedicação de Julio Thomaz ao Caminho do Itupava transcende o âmbito profissional, configurando-se em uma profunda conexão com a história e a formação do próprio Paraná. Ele postula que esta trilha pode ter sido um importante ramal do grandioso Caminho do Peabiru, uma rota ancestral que ligava os oceanos Atlântico e Pacífico, utilizada por povos originários e, posteriormente, por colonizadores.

A relevância histórica do Itupava é inegável. Curitiba, de acordo com Thomaz, floresceu próximo a esta via de comunicação, que foi crucial para o estabelecimento inicial da vila. Os primeiros colonizadores e exploradores utilizaram este caminho para ascender ao planalto, moldando o futuro da região.

Ademais, o Caminho do Itupava desempenhou um papel vital na economia do Paraná, especialmente durante o ciclo da erva-mate. O produto, extraído no planalto, era escoado por esta rota para os portos de Paranaguá e Antonina, alimentando os engenhos hidráulicos localizados ao longo do caminho, da Graciosa e do Arraial, peças-chave na infraestrutura da época.

Para Julio Thomaz, a importância da arqueologia reside em sua capacidade de responder a uma questão fundamental: “descobrir por onde viemos”. O estudo da mobilidade humana, dos fluxos de pessoas e mercadorias, e da formação territorial, oferece uma perspectiva crucial para entendermos nossa identidade e nossas origens.

A compreensão da trajetória percorrida por nossos antepassados, a análise de suas interações e adaptações ao ambiente, são informações constitutivas de quem somos e de onde viemos. A arqueologia, portanto, não é apenas o estudo do passado, mas uma ferramenta essencial para a construção do presente e a projeção do futuro, permitindo-nos traçar um mapa mais claro de nossa jornada coletiva.

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