A necessidade de realocar a ferrovia de cargas fora da área urbana de Curitiba emergiu como ponto central em recente audiência pública sobre a nova concessão da Malha Sul. A discussão, que reuniu mais de 220 participantes, incluindo figuras políticas, empresariais e representantes da sociedade civil, focou em propostas de alteração ao edital preparado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Entre as principais demandas, destacam-se a construção de contornos ferroviários, tanto Leste quanto Oeste, para a Região Metropolitana de Curitiba. Adicionalmente, pleiteia-se um novo traçado para o trecho da Serra da Esperança, cobrindo o percurso entre Guarapuava e Lapa, além da ampliação dos pátios de manobra. Uma priorização de investimentos para obras no Paraná também foi solicitada.
A remoção da linha férrea de zonas densamente povoadas é vista como crucial para mitigar graves problemas de mobilidade urbana. Atualmente, a ferrovia atravessa 21 bairros curitibanos, cruzando 51 pontos em nível, o que gera constantes entraves ao fluxo de veículos, ao transporte público e ao planejamento do desenvolvimento urbano em áreas onde residem aproximadamente 467 mil pessoas.
Os impactos da ferrovia na malha urbana vão além da interrupção do tráfego. Dados históricos apontam para uma elevada incidência de acidentes ferroviários em Curitiba, posicionando a cidade no topo do ranking nacional nesse quesito. Um levantamento da ANTT indica que, entre 2005 e 2025, foram registrados 433 incidentes na linha operada pela Rumo Malha Sul.
Um panorama recente, cobrindo o período de 2021 a 2024, revelou um alarmante número de 152 acidentes. Este cenário resultou em mais de 60 feridos e um trágico total de 27 mortes, evidenciando os riscos inerentes à convivência da infraestrutura ferroviária com o ambiente urbano.
Impactos socioeconômicos e urbanísticos da ferrovia urbana
Defensores da remoção da ferrovia argumentam que a implantação dos contornos propostos traria um benefício significativo ao retirar mais de 40 quilômetros de trilhos do tecido urbano. Essa medida tem o potencial de diminuir conflitos entre trens, veículos automotores e ônibus, liberando espaço valioso.
A área liberada poderia ser redirecionada para a criação de novas conexões viárias, a expansão de corredores de transporte coletivo, a implementação de ciclovias, a construção de parques e a execução de outros projetos de revitalização urbana, promovendo um ambiente mais seguro e funcional para os munícipes.
A consulta pública promovida pela ANTT para coletar contribuições sobre o edital da nova concessão permanece aberta até 10 de agosto. As sugestões serão encaminhadas ao Ministério dos Transportes. Novas audiências presenciais estão agendadas para Porto Alegre e Florianópolis, consolidando a importância deste debate para a região.
Análise e perspectivas futuras para a infraestrutura ferroviária
A discussão sobre a realocação da ferrovia em Curitiba transcende a simples remoção de trilhos; trata-se de uma profunda reflexão sobre o papel da infraestrutura de transporte no desenvolvimento de cidades inteligentes e sustentáveis. A concentração de acidentes e os gargalos de mobilidade são sintomas de um planejamento que, em décadas passadas, não antecipou o crescimento urbano.
A nova concessão da Malha Sul representa uma oportunidade singular para corrigir equívocos históricos e alinhar a operação ferroviária com as demandas contemporâneas de segurança, eficiência logística e qualidade de vida urbana. A viabilização dos contornos e a modernização da infraestrutura são passos essenciais para garantir que a logística de cargas não comprometa o bem-estar da população e o futuro das metrópoles.






