Um importante fórum virtual, promovido pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) em colaboração com o International Council of Nurses (ICN) e a Federação Pan-Americana dos Profissionais de Enfermagem (Feppen), debateu nesta quarta-feira (27/5) os complexos desafios que moldam a prática da Enfermagem. A discussão focou na tríade: liderança, ética e atuação política da profissão, inserida no contexto do projeto Nursing Now, que visa fomentar o desenvolvimento de lideranças na Enfermagem brasileira.
A atual pandemia de Covid-19 impôs uma velocidade sem precedentes a mudanças no sistema de saúde, demandando uma capacidade ímpar de adaptação por parte dos profissionais de Enfermagem. A necessidade de gerir situações de alta criticidade e coordenar equipes sob pressão evidenciou a urgência da formação de líderes qualificados, objetivo central da iniciativa “Enfermagem: Liderança em Rede”.
O cenário profissional da Enfermagem é marcado por transformações contínuas, impulsionadas pelo rápido avanço tecnológico e pelo progressivo envelhecimento populacional. Muitos profissionais em atividade, com formação anterior à disseminação de ferramentas digitais e inteligência artificial, necessitam de novas competências para integrar essas inovações em suas rotinas. A inteligência artificial (IA), em particular, tem o potencial de redefinir tarefas, exigindo que a Enfermagem transcenda o mero fazer técnico, dando maior ênfase ao equilíbrio emocional e ao aspecto humanístico do cuidado.
A discussão sobre o protagonismo da Enfermagem na esfera política foi intensa. A participação ativa na formulação de políticas públicas é vista como um caminho indispensável para aprimorar a qualidade da assistência à saúde oferecida à população e, simultaneamente, assegurar melhores condições de trabalho e reconhecimento para os mais de 3 milhões de profissionais da área no Brasil. Atualmente, a representatividade política desses trabalhadores no Congresso Nacional é desproporcional à sua relevância numérica e social, com apenas cinco representantes.
A complexidade dos problemas de saúde pública, que extrapolam o ambiente hospitalar e abrangem desde o combate a doenças endêmicas até a promoção de saneamento básico e campanhas preventivas, exige uma visão abrangente e estratégica. A aprovação de leis e a implementação de políticas eficazes, que impactam as esferas econômica e social, dependem intrinsecamente da atuação política. Portanto, a excelência técnica por si só não é suficiente para garantir o futuro e a valorização da Enfermagem.
A desvalorização e o modelo médico-centrado
A perpetuação da desvalorização profissional na Enfermagem está intrinsecamente ligada a um modelo de saúde historicamente médico-centrado, prevalente no Brasil e em outras nações latino-americanas. Este paradigma concentra as decisões primordiais nas mãos da classe médica, dificultando a efetivação do trabalho multidisciplinar e colaborativo.
Tal concentração de poder e tomada de decisão culmina em desigualdades significativas no reconhecimento profissional e na autonomia das demais categorias da saúde. A disparidade salarial acentuada entre médicos e enfermeiros, por exemplo, força muitos profissionais a acumularem múltiplos empregos, resultando em jornadas exaustivas, elevado estresse e sérios impactos na saúde mental.
Legislação e o panorama internacional
A análise comparativa das regulamentações que regem a Enfermagem revela um panorama global heterogêneo, com significativas lacunas legislativas. Nos Estados Unidos, a ausência de uma lei federal específica para o exercício da Enfermagem gera um ambiente de trabalho com condições e jornadas extremamente variáveis entre os estados, evidenciando a falta de padronização e proteção.
Diante desse cenário, defende-se a necessidade de uma nova definição para a Enfermagem, com nomenclaturas precisas e internacionalmente padronizadas, a fim de atualizar a legislação e incorporar as transformações recentes da profissão. A articulação internacional visa pressionar governos para a criação de normas que assegurem a proteção, a governança e a valorização dos trabalhadores da Enfermagem em escala global, promovendo equidade e reconhecimento.

