A busca por um equilíbrio ético no uso da tecnologia avançada em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) foi um dos pontos centrais de discussões recentes no meio da saúde. A Associação Brasileira de Enfermagem em Terapia Intensiva (Abenti), em seu 4º Congresso Internacional, reuniu especialistas para debater os limites da intervenção tecnológica e a correta adequação do cuidado ao paciente.
A complexidade crescente das UTIs modernas, impulsionada pela digitalização e pelo advento de ferramentas como a inteligência artificial em prontuários, levanta questões cruciais sobre a finalidade do suporte vital. A tecnologia, segundo especialistas, deve ser vista como um meio para sustentar funções orgânicas, jamais como um fim em si mesma.
Quando as intervenções tecnológicas não apresentam resultados clínicos concretos, a prioridade se volta para o controle da dor e o alívio do sofrimento. O foco principal recai sobre proporcionar conforto e dignidade ao paciente em seus momentos finais ou em situações de prognóstico desfavorável.
A Decisão Ética na Ponta do Cuidado
A adequação do cuidado em cenários de alta tecnologia exige uma análise multifacetada. É imperativo avaliar o benefício clínico real de cada intervenção, a proporcionalidade dos recursos empregados e, fundamentalmente, os valores e desejos expressos pelo paciente.
Uma decisão informada sobre o curso terapêutico não pode prescindir de uma avaliação rigorosa. A enfermagem, atuando como o “sensor mais avançado” dentro da UTI, desempenha um papel vital na identificação de qualquer descompasso entre o suporte oferecido e as necessidades reais do indivíduo.
A Essência do Cuidado Humano
O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) tem emitido pareceres e resoluções que orientam a prática profissional, especialmente no que tange aos cuidados paliativos. O objetivo é assegurar a qualidade da assistência, garantindo conforto e minimizando o sofrimento.
A responsabilidade do profissional de enfermagem abrange diversas esferas, incluindo as administrativas, éticas, civis e penais, quando houver falhas na adequação do cuidado. A reavaliação contínua do tratamento é essencial para confirmar se os benefícios são claros e se há melhora clínica significativa.
Quando a resposta ao tratamento é limitada ou incompatível com os valores do paciente, a discussão multidisciplinar se torna indispensável para a transição para cuidados paliativos. A tecnologia pode manter funções biológicas, mas é o cuidado humano que verdadeiramente preserva a individualidade e a dignidade da pessoa.

