Uma busca por um pedaço esquecido da história da aviação brasileira está em andamento, liderada por um descendente direto de um pioneiro curitibano. A família Essenfelder, conhecida por ter fundado a primeira fábrica de pianos do Brasil, também se destaca por um feito de engenharia que remonta a 1914: a fabricação da primeira hélice de avião produzida em solo nacional. O artefato, parte essencial do monoplano “Bahiano”, que realizou o primeiro voo motorizado em Curitiba, encontra-se desaparecido, alimentando um desejo de reencontro com este legado.
O avião, um modelo Blériot, levantou voo pela primeira vez na capital paranaense em 5 de abril de 1914, pilotado por Cícero Arsênio Marques. A demonstração aérea, que sobrevoou marcos da cidade e emocionou a multidão reunida no Prado Velho, local que hoje abriga a PUC Paraná, sofreu um revés durante o pouso inicial. A hélice original sofreu danos significativos ao atingir o terreno irregular, interrompendo a sequência de apresentações planejadas.
A urgência para reparar a aeronave era palpável. A importação de uma nova hélice da Europa levaria, no mínimo, três meses. Em meio a essa necessidade, uma solução engenhosa emergiu de um dentista local, Jorge Leitner, que sugeriu buscar auxílio de Floriano Essenfelder. Conhecido por sua habilidade em fabricar pianos e reparar espingardas, Essenfelder foi presentedo com o fragmento da hélice danificada.
Diante de um desafio técnico inédito – nunca antes havia manuseado uma hélice inteira –, Floriano Essenfelder aceitou a incumbência. Com a permissão do pai, ele se dedicou à tarefa em sua oficina. Utilizando madeiras nobres e abundantes na região, como imbuias e araucárias, ele empreendeu semanas de trabalho árduo.
A Arte da Reparação e a Inovação em Madeira
O processo de fabricação da nova hélice foi um exercício de engenhosidade e dedicação. Floriano Essenfelder moldou, comparou e refinou o design, enfrentando a complexidade de replicar uma peça aerodinâmica sem referências completas. Sua perícia, adquirida na fabricação de instrumentos musicais de precisão, provou ser fundamental.
Em vez de produzir apenas uma unidade para substituir a peça danificada, Floriano Essenfelder fabricou um lote de oito hélices. Essa decisão estratégica visava garantir que houvesse alternativas caso a primeira tentativa de voo apresentasse qualquer instabilidade. A eficiência e a resistência da hélice confeccionada no Brasil foram notáveis, superando as expectativas e a performance da peça europeia original.
O feito de Floriano Essenfelder marcou um momento crucial na história da aviação brasileira, demonstrando a capacidade técnica e a inventividade nacional em um período embrionário da tecnologia aeronáutica. A resolução do problema da hélice quebrada permitiu que o “Bahiano” retornasse aos céus em menos de 21 dias após o incidente, consolidando o primeiro voo em Curitiba e a fabricação local de componentes aeronáuticos.
No entanto, o destino dessas oito hélices originais é um mistério. Cezar Essenfelder de Azevedo, bisneto de Floriano e atual guardião dessa história, expressa sua frustração e esperança na busca por esses artefatos. Ele acredita que as hélices podem ter se tornado objetos decorativos, guardadas em residências ou escritórios, esperando serem redescobertas.
Um Legado em Busca de Reencontro
A família Essenfelder, com sua rica trajetória que se estende desde a fabricação de pianos até este feito aeronáutico, almeja recuperar ao menos uma das hélices para honrar a memória de Floriano e apresentar esse capítulo da história para as novas gerações. Cezar sonha em expor essa peça de valor histórico e técnico para sua mãe, Solange, de 80 anos, perpetuando assim a conexão familiar com este importante marco.
A hélice do “Bahiano” possui características distintivas que podem auxiliar em sua identificação. Feita de madeira escura envernizada, com duas pás compridas – aproximadamente dois metros de comprimento –, apresenta uma construção em camadas visíveis, lembrando uma tábua de corte grande. As pás são mais largas nas extremidades, num formato que difere das hélices modernas, mais finas e uniformes. No centro, um orifício proeminente é cercado por furos menores, possivelmente com um disco metálico.
Além da própria peça, o projeto de busca também se volta para quem possa ter registros fotográficos ou lembranças de hélice semelhante. Informações sobre a origem, a época e as pessoas presentes em tais registros são de grande valor. A família também está reunindo informações sobre a história da fabricação de pianos pela F. Essenfelder Ltda., que operou em Curitiba por quase 90 anos, e sobre os fundadores do Coritiba Foot Ball Club, aos quais os irmãos Floriano e Fritz Essenfelder pertenceram.
Para aqueles que possuírem informações relevantes ou pistas sobre o paradeiro das hélices, o contato pode ser feito através do e-mail cezar@essenfelder.com.br. O acompanhamento da busca também está disponível na página do Instagram @essenfelder_legacy.






