PCC e CV usam Porto do Paraná como nova rota do tráfico internacional

🕓 Última atualização em: 22/08/2026 às 16:10

O combate intensificado ao tráfico internacional de drogas no Porto de Santos, o maior da América Latina, tem provocado uma notável realocação das rotas e estratégias de organizações criminosas. Em resposta ao aumento da fiscalização e à presença de scanners, videomonitoramento avançado e outras tecnologias de vigilância no terminal paulista, grupos como o PCC e o Comando Vermelho têm direcionado suas operações para portos localizados nas regiões Sul e Norte do Brasil. Essa mudança representa um desafio constante para as autoridades de segurança, que precisam adaptar suas táticas para coibir novas modalidades de crimes.

A sofisticação das quadrilhas é um fator crucial nesse cenário. Elas empregam uma complexa rede de logística, que inclui mergulhadores para operações em áreas de difícil acesso e funcionários de empresas de logística cooptados. Adicionalmente, equipes especializadas atuam na adulteração de contêineres e na criação de mecanismos para driblar os sistemas de detecção, evidenciando a necessidade de um esforço contínuo e inovador por parte do Estado.

A estratégia de dispersão não se limita a portos específicos, mas abrange uma variedade de terminais em diferentes estados. Investigações recentes revelam que portos como os de Paranaguá (PR), além de diversos terminais em Santa Catarina (como Navegantes, Imbituba, Itapoá e São Francisco do Sul), têm sido utilizados como pontos de passagem para remessas ilícitas. Essa expansão geográfica demonstra a capacidade de adaptação e resiliência das redes criminosas.

A Receita Federal, responsável pelo controle aduaneiro, reconhece a dinâmica de mudanças e afirma que acompanha permanentemente a evolução das cadeias logísticas e os métodos empregados pelas organizações. A adaptação às novas rotas exige não apenas a ampliação da presença física, mas também o aprimoramento da análise de risco, a integração de dados e o intercâmbio de informações com outros órgãos e administrações aduaneiras.

A colaboração entre facções brasileiras e máfias internacionais também tem se intensificado, com registros da atuação conjunta de grupos criminosos europeus, incluindo organizações italianas e albanesas. Essa aliança estratégica potencializa a capacidade operacional e financeira do tráfico, tornando o combate ainda mais complexo.

Novas Fronteiras para o Crime Organizado

A fuga da fiscalização mais rigorosa em Santos tem levado os grupos criminosos a explorarem a vulnerabilidade de outros portos. Informações obtidas por meio de escutas telefônicas interceptadas pela Polícia Federal sugerem que o Porto de Paranaguá, por exemplo, tem se tornado uma alternativa mais atrativa. A conversa interceptada de um dos investigados aponta que “o porto de Santos está babado”, indicando a dificuldade de operar no terminal paulista.

Além disso, operações policiais em portos do Norte, como em Santana no Amapá, revelaram apreensões de volumes significativos de cocaína, surpreendendo as autoridades locais que antes não registravam operações dessa magnitude. Esse padrão sugere uma migração deliberada das rotas, visando áreas com menor percepção de risco e, consequentemente, menor intensidade de fiscalização em determinados períodos.

A persistência do fluxo de drogas, apesar dos esforços de repressão, é um indicativo da constante busca por novas lacunas no sistema de segurança portuária. A apreensão de centenas de quilos de cocaína em cargas de café com destino à Europa, mesmo em portos que antes pareciam menos visados, ressalta essa realidade. O desafio reside em antecipar essas mudanças e fortalecer a inteligência e a capacidade de resposta em todas as regiões costeiras do país.

A própria estrutura de segurança em Santos, com seus 17 scanners, 4.400 câmeras e monitoramento por drones e captação de ondas de calor, apesar de robusta, ainda apresenta vulnerabilidades, como na área de fundeio. Essa resiliência, contudo, não impede que as organizações criminosas busquem alternativas onde a vigilância possa ser menos saturada.

O Nexus Financeiro e a Expansão das Rotas

As investigações que desarticularam esquemas bilionários revelam uma complexa teia financeira por trás das operações de tráfico. A atuação de doleiros e casas de câmbio tem sido fundamental para a lavagem de dinheiro, dissimulando a origem dos recursos e viabilizando a continuidade das atividades ilícitas. A PF aponta para o uso de uma casa de câmbio na Avenida Paulista, em São Paulo, como um dos exemplos dessa modalidade.

Essa capacidade financeira permite às organizações criminosas financiar infraestruturas complexas, como a estadia de membros de máfias em casas bancadas pelas facções em cidades como João Pessoa. A articulação transnacional é evidente, com a colaboração de operadores brasileiros e europeus, que utilizam rastreadores em cargas para monitorar cada etapa do percurso das drogas.

O montante movimentado, na ordem de bilhões de reais ao longo de anos, demonstra a escala do problema e a necessidade de um combate multifacetado. A inclusão de nomes em listas de difusão vermelha da Interpol, como no caso de Nicholas Evangelista, um dos envolvidos em esquemas que movimentaram R$ 4 bilhões, é um reflexo da cooperação internacional na tentativa de desmantelar essas redes financeiras e operacionais.

A constante alteração das rotas, a diversificação dos métodos e a aliança com grupos internacionais exigem uma resposta integrada e adaptativa por parte das autoridades. A análise de risco, a inteligência compartilhada e o fortalecimento da infraestrutura de fiscalização em todos os pontos de entrada e saída do país são essenciais para mitigar a influência dessas organizações.

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