O Paraná celebra uma marca histórica em 2023, ultrapassando a marca de 10 mil transplantes de órgãos realizados desde a criação do Sistema Estadual de Transplantes (SET) em 2011. O mês de setembro, conhecido pela campanha “Setembro Verde” de conscientização sobre doação de órgãos, ganha um significado ainda maior com a consolidação de um programa que tem salvado e reabilitado milhares de vidas em todo o estado.
Os números refletem um crescimento substancial na eficiência da captação e no número de procedimentos bem-sucedidos. Em 2011, o estado registrou apenas 70 doações efetivas entre janeiro e agosto. No mesmo período de 2023, esse número saltou para 293, representando um aumento superior a 300% e evidenciando um avanço significativo na estrutura de saúde pública voltada para essa área.
Anualmente, o salto também é expressivo. Se em 2011 o Paraná contabilizou 111 doações, o ano de 2022 fechou com 462, consolidando a trajetória ascendente. Esses resultados são fruto de um complexo trabalho de coordenação e humanização, orquestrado pelas Organizações de Procura de Órgãos (OPO).
A eficiência logística e a dedicação das equipes são pilares fundamentais para o sucesso do programa. O Paraná demonstra que a saúde pública, quando bem estruturada e articulada, pode oferecer resultados de excelência, não apenas no aspecto técnico-cirúrgico, mas também na delicada abordagem aos familiares em um momento de extrema vulnerabilidade.
A Articulação Estratégica das OPOs
O Sistema Estadual de Transplantes (SET) opera em regime de plantão ininterrupto, monitorando constantemente a demanda e a disponibilidade de órgãos. Essa vigilância ativa é crucial para conectar pacientes na lista de espera à infraestrutura hospitalar capaz de realizar a captação e o transplante. A agilidade e a integração entre as equipes distribuídas pelas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) são essenciais para o fluxo contínuo desse processo.
A força motriz por trás dessa operação é a regionalização. O Paraná conta com quatro OPOs estrategicamente localizadas em Curitiba (Leste), Cascavel (Oeste), Maringá (Noroeste) e Londrina (Norte). Essas unidades, compostas por 26 profissionais especializados, garantem a cobertura de todo o território estadual, otimizando o tempo de resposta e a logística em situações críticas.
O modelo de atuação das OPOs e das Equipes Hospitalares de Doação para Transplantes (e-DOTs) é um diferencial importante. Quando um hospital notifica um caso de potencial morte encefálica, as equipes entram em ação para validar o diagnóstico, manter a condição clínica do potencial doador e, crucialmente, conduzir a entrevista com a família.
O sucesso na obtenção do consentimento familiar no Paraná é notável. Enquanto a média nacional de recusa familiar para doação de órgãos gira em torno de 45%, o estado registra um índice significativamente menor, de 33%. Essa taxa, uma das mais baixas do país, é resultado direto do treinamento contínuo e da abordagem humanizada das equipes.
Os profissionais das OPOs e e-DOTs são capacitados para oferecer suporte emocional, esclarecer dúvidas e garantir que a família se sinta acolhida e informada durante todo o processo. O consentimento para a doação, nesses casos, emerge de um diálogo transparente e empático, fortalecendo a confiança no sistema.
Educação e Conscientização: Mudando a Cultura da Doação
Uma vez obtido o consentimento familiar, a OPO assume um papel de logística avançada. A equipe articula-se com o SET-PR, coordena a captação, reserva centros cirúrgicos, gerencia a identificação de amostras biológicas e, quando necessário, interage com o Instituto Médico-Legal (IML), assegurando que os receptores e as equipes cirúrgicas tenham as condições ideais para o transplante.
Além da atuação direta nos casos de notificação, as OPOs dedicam-se à educação permanente das instituições de saúde. Mesmo em períodos sem captações ativas, o trabalho de capacitação das e-DOTs, que envolve médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, é contínuo. Os treinamentos abrangem desde a comunicação de más notícias até os protocolos clínicos rigorosos para a manutenção da viabilidade dos órgãos.
As estratégias de educação em saúde vão além dos hospitais, visando uma mudança cultural na sociedade. A unidade de Cascavel, por exemplo, tem promovido ações interativas como o “Bloco Doação de Órgãos, Fale sobre isso”. Essas iniciativas utilizam momentos de descontração e datas de mobilização nacional para integrar o tema à comunidade, desmistificando o processo e incentivando o diálogo familiar.
Essa aproximação com a população tem um objetivo claro: naturalizar a discussão sobre a doação de órgãos. Ao promover conversas abertas e informadas, o Paraná busca garantir que o consentimento para a doação seja uma decisão consciente e discutida previamente pelas famílias. O sucesso nas UTIs, refletindo o aumento no número de transplantes, comprova que a informação disseminada fora do ambiente hospitalar é um fator determinante para o avanço do programa.






