Filhote de lobo marinho subantártico volta ao oceano após reabilitação no Paraná

Um filhote de lobo-marinho-subantártico, após um período de quase dois meses de cuidados intensivos e reabilitação, foi solto de volta em seu habitat natural no litoral do Paraná. A fêmea, que encalhou em setembro em Matinhos, recebeu tratamento veterinário especializado e estímulos para aprimorar seus instintos de caça. A ação de soltura, realizada próximo à Ilha das Peças, marca um avanço na conservação da espécie e permitirá o monitoramento por satélite de seus deslocamentos.

O resgate do animal ocorreu no dia 8 de setembro, no Balneário Gaivotas. A equipe multidisciplinar do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC-UFPR), responsável pelo Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) no estado, avaliou o filhote. Constataram-se alterações nos sistemas respiratório e gastrointestinal, necessitando de intervenção clínica e acompanhamento contínuo.

Com aproximadamente quatro meses de idade e medindo 86 centímetros, o filhote pesava oito quilos no momento do resgate. Ele foi encaminhado ao Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD-UFPR), um centro de referência da UFPR. Este caso representou um marco, sendo o primeiro filhote de lobo-marinho-subantártico atendido pela equipe do PMP-BS/LEC-UFPR.

A recuperação clínica foi considerada favorável, com a normalização dos parâmetros de saúde. Com base nas avaliações veterinárias e comportamentais, o animal foi considerado apto para retornar à vida livre.

A reabilitação não se limitou aos cuidados clínicos. Foram aplicados estímulos de caça, cruciais para reativar comportamentos essenciais à sobrevivência em ambiente selvagem. A preparação física e comportamental é um componente fundamental para garantir que o animal esteja apto a se reintegrar à natureza.

O médico-veterinário responsável técnico pelo PMP-BS/LEC-UFPR, Fábio Henrique de Lima, ressalta a importância da soltura como uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre a espécie. “A reabilitação exige acompanhamento diário, tanto clínico quanto comportamental. Nosso objetivo é assegurar que este animal retorne à natureza nas melhores condições possíveis. O uso de um transmissor satelital nos permitirá acompanhar seus deslocamentos, registrando distâncias percorridas e outros dados comportamentais relevantes para estudos sobre a espécie”, explica Lima.

Monitoramento por Satélite Amplia o Conhecimento sobre Pinípedes

O filhote foi equipado com um transmissor satelital, pesando cerca de 140 gramas. Este dispositivo, projetado especificamente para o monitoramento de animais marinhos, foi fixado à pelagem por meio de adesivo, sem comprometer a mobilidade ou o comportamento natural do animal. O equipamento é programado para se desprender autonomamente após um determinado período.

O acompanhamento por satélite visa coletar dados sobre a trajetória do filhote após seu retorno ao oceano. Essas informações são valiosas para entender os padrões de deslocamento da espécie ao longo da costa brasileira e para avaliar o sucesso da reabilitação em ambiente natural.

Camila Domit, bióloga e coordenadora do PMP-BS/LEC-UFPR, destaca que o monitoramento por satélite abre novas fronteiras na pesquisa. “Essa tecnologia permite observar os movimentos de indivíduos após a soltura, agregando informações cruciais para a ecologia e a conservação dos pinípedes, um grupo que inclui lobos-marinhos, leões-marinhos e elefantes-marinhos”, afirma Domit.

Esta iniciativa marca a primeira vez que a equipe do LEC-UFPR utiliza um transmissor satelital em um filhote de lobo-marinho-subantártico. Em 2026, o projeto também monitorou por satélite um filhote de elefante-marinho-do-sul e um indivíduo juvenil de lobo-marinho-do-sul, consolidando o compromisso com a pesquisa em mamíferos marinhos.

A integração entre reabilitação, soltura e monitoramento pós-liberação é fundamental para a continuidade do acompanhamento científico e para o desenvolvimento de estratégias de conservação mais eficazes para a fauna marinha.

Aumento de Ocorrências e Possíveis Fatores Associados

Entre janeiro e outubro de 2026, o PMP-BS/LEC-UFPR registrou 23 ocorrências de pinípedes no litoral paranaense. Este número inclui lobos-marinhos-subantárticos, lobos-marinhos-do-sul, um elefante-marinho-do-sul e animais em estágios avançados de decomposição que impediram a identificação da espécie. Em comparação, o mesmo período de 2025 registrou sete indivíduos, evidenciando um aumento significativo.

Camila Domit aponta que fenômenos climáticos, como o El Niño, podem influenciar a ocorrência dessas espécies, embora ressalte a necessidade de análises mais aprofundadas. “Em anos de El Niño intenso, observamos um aumento nos encalhes de algumas espécies. Contudo, este padrão está sob análise, pois múltiplos parâmetros naturais e antropogênicos precisam ser considerados para compreendermos as relações de causa e consequência”, explica a coordenadora.

A presença de lobos-marinhos e outros pinípedes nas praias não indica necessariamente que estejam doentes. Esses mamíferos marinhos utilizam a faixa de areia para descansar durante seus deslocamentos. Portanto, qualquer avaliação deve ser conduzida por equipes especializadas.

A orientação para o público é clara: em caso de encontro com um animal marinho na praia, é fundamental manter distância, afastar animais domésticos e evitar qualquer contato, alimentação ou tentativa de retorno ao mar. A aproximação pode causar estresse e interferir no comportamento natural do animal.

No litoral do Paraná, denúncias de animais marinhos podem ser feitas pelos telefones 0800 642 3341 ou 41 99213-8746. O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) é uma iniciativa que visa monitorar e conservar a fauna marinha em face das atividades de exploração de petróleo e gás na Bacia de Santos, com execução no Paraná pela LEC/UFPR.

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