Cineclubes em Curitiba promovem sessões de cinema em necrotério desativado

🕓 Última atualização em: 07/05/2026 às 17:29

Curitiba, PR — Em uma iniciativa cultural singular, o antigo necrotério do Instituto Médico Legal (IML) da capital paranaense, hoje integrado ao Museu Paranaense de Ciências Forenses (MPCF), tornou-se palco de sessões gratuitas de filmes de terror. O projeto, batizado de Cineclube Necrotério, ocorre mensalmente e busca oferecer ao público uma experiência imersiva e, por vezes, arrepiante, em um ambiente carregado de história e simbologia forense.

A proposta, que tem como contrapartida a produtora local Vigor Mortis, tem atraído um público expressivo. As sessões são abertas ao público em geral, com capacidade limitada a cerca de 50 espectadores. A alta procura é tamanha que as senhas para acesso costumam se esgotar poucos minutos após a abertura da distribuição, evidenciando o interesse gerado pela proposta.

A parceria entre a produtora e a Polícia Científica do Paraná floresceu de forma orgânica. Inicialmente, a Vigor Mortis buscava um local incomum para encenar uma peça teatral comemorativa. O antigo necrotério se apresentou como uma opção intrigante, despertando o interesse não apenas para filmagens de depoimentos, mas também para a própria apresentação teatral.

Essa colaboração inicial abriu portas para a atual programação cinematográfica. A primeira exibição ocorreu em 31 de outubro de 2024, em alusão ao Halloween, com a projeção do filme “Morgue Story”, dirigido pelo cineasta Paulo Biscaia. Dois anos após sua estreia, o Cineclube mantém sua agenda regular, funcionando entre os meses de fevereiro e novembro.

A organização do evento é, em grande parte, voluntária, contando com o apoio institucional do Museu Forense e da Polícia Científica. Parceiros pontuais colaboram com a cessão de matrizes de exibição e direitos autorais, como é o caso da plataforma Darkflix, que tem auxiliado na disponibilização de conteúdo.

Curadoria e o Diálogo com o Espaço

A seleção dos filmes é um ponto crucial do projeto, sendo realizada por críticos e acadêmicos de cinema. A escolha prioriza obras que dialogam diretamente com o ambiente do necrotério, abordando temas como a morte, o pós-morte e o universo do horror em suas diversas vertentes. O objetivo é ir além do simples susto, buscando também explorar o impacto cultural das produções.

Essa curadoria atenta à ambientação tem proporcionado exibições marcantes. A produção luso-espanhola “A Noite do Terror Cego” foi uma das obras recentes apresentadas. Antes da exibição do longa, o projeto deu espaço para novos talentos, exibindo curtas-metragens produzidos pelo coletivo Motoserras, um projeto de extensão em cinema de terror da Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

A experiência de assistir a um filme de terror em um local com a história e a atmosfera do antigo necrotério é, para muitos, um diferencial significativo. O ambiente, com seu passado ligado a procedimentos médicos e investigações forenses, adiciona uma camada de misticismo e intensifica a imersão do público na narrativa.

A relevância cultural da iniciativa é frequentemente destacada por frequentadores e críticos. A reutilização de espaços com histórico, transformando-os em locais de difusão cultural, contribui para a revitalização da memória urbana e para a oferta de novas perspectivas de entretenimento e aprendizado na cidade. O Cineclube Necrotério, portanto, transcende a simples exibição de filmes, tornando-se um elemento ativo na preservação da história e na promoção da arte.

O Impacto na Percepção Cultural e Urbana

A proposta do Cineclube Necrotério ressoa positivamente no cenário cultural de Curitiba. Críticos de cinema como Juno Lima ressaltam a importância da iniciativa para a cidade, descrevendo-a como uma “importante proposta cultural”. Lima aponta que a utilização do espaço confere novos significados e agrega valor à cultura local, mantendo a história daquele local viva, mas sob uma nova perspectiva.

Essa capacidade de resignificar um espaço historicamente associado a procedimentos sombrios é um dos pilares do sucesso do projeto. Ao invés de ser esquecido ou descaracterizado, o antigo necrotério encontra uma nova função, promovendo debate e apreciação artística. A atmosfera peculiar do local, com sua carga simbólica intrínseca, funciona como um catalisador para a experiência cinematográfica, amplificando as emoções e a conexão do público com os filmes exibidos.

A iniciativa também demonstra como políticas públicas e parcerias privadas podem convergir para a criação de projetos inovadores e de baixo custo, mas com alto impacto social e cultural. Ao transformar um local potencialmente associado a estigma em um ponto de encontro para apreciadores de cinema e para a divulgação de um gênero com forte apelo popular, o Cineclube Necrotério se consolida como um case de sucesso.

O projeto, portanto, contribui para a democratização do acesso à cultura e para a exploração de novos modelos de fruição artística. A continuidade e o reconhecimento do Cineclube Necrotério reforçam a importância de se pensar em usos criativos para espaços públicos, promovendo não apenas o lazer, mas também a reflexão sobre a memória, a arte e a própria relação da sociedade com temas muitas vezes tabus.

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