O controle de espécies invasoras em ecossistemas naturais e áreas de produção agrícola tem ganhado atenção especial no Paraná, com uma nova parceria estabelecida entre o Instituto Água e Terra (IAT) e a Frísia Cooperativa Agroindustrial. A colaboração visa a mitigar os impactos causados pela proliferação do javali (Sus scrofa), um animal exótico introduzido que tem gerado significativos prejuízos ambientais e econômicos no estado.
A cooperação se concentra em estratégias de manejo dentro das Unidades de Conservação (UCs) estaduais. O javali é reconhecido nacionalmente, por meio de legislação federal específica, como uma espécie exótica invasora. Sua presença descontrolada pode levar à degradação do solo, à destruição da vegetação nativa e à competição direta com a fauna local.
Adicionalmente, os danos a lavouras representam uma preocupação crescente para o setor produtivo. O programa Investe Parques, capitaneado pelo IAT, servirá como plataforma para a articulação dessas ações conjuntas.
A Frísia Cooperativa Agroindustrial já realizou sua primeira contribuição, doando mais de 4,2 toneladas de grãos, compostos por milho e quirera. Esses insumos serão fundamentais para a implementação de técnicas de controle populacional dentro dos parques.
A primeira fase da distribuição desses alimentos contemplará quatro unidades com expressiva demanda: o Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa; o Parque Estadual Mata São Francisco, abrangendo Cornélio Procópio e Santa Mariana; o Horto Florestal de Jacarezinho; e o Parque Estadual Lago Azul, que se estende por Campo Mourão e Luiziana.
Essas ações são fundamentais para a manutenção da biodiversidade e a proteção dos ecossistemas. Segundo Amanda Scheffer Beltramin, chefe da Divisão de Estratégias para a Conservação do IAT, o controle do javali é um dos “grandes desafios para a conservação da biodiversidade no Paraná”.
O Programa Investe Parques e suas Implicações
O programa Investe Parques, instituído pelo IAT e regulamentado em 2024, busca fortalecer a interação entre o setor público e a iniciativa privada em prol da preservação ambiental. A modalidade de atuação permite doações espontâneas ou via chamamento público, abrangendo um leque variado de apoios.
As contribuições podem se dar na forma de bens, serviços, materiais de consumo ou recursos financeiros. Essas parcerias viabilizam desde a construção e manutenção de infraestruturas, como trilhas e centros de visitantes, até o desenvolvimento de iniciativas em educação ambiental, turismo sustentável, pesquisa e, crucialmente, o manejo e a proteção da biodiversidade.
Em contrapartida, as empresas e cooperativas parceiras adquirem visibilidade institucional, com a divulgação de suas ações nos canais oficiais do IAT. Esta modalidade de colaboração visa alinhar propósito, reputação e a transformação efetiva do patrimônio natural do estado.
A parceria atual com a Frísia tem duração inicial de um ano, com possibilidade de prorrogação, e as doações não seguirão uma periodicidade fixa, adaptando-se às necessidades específicas das UCs. Além das quatro primeiras unidades a serem atendidas, outras cinco UCs serão beneficiadas nesta fase inicial: Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo (Fênix), Parque Estadual de Campinhos (Cerro Azul e Tunas do Paraná), Parque Estadual Mata dos Godoy (Londrina), Parque Estadual São Camilo (Palotina) e Parque Estadual do Ibicatu (Centenário do Sul).
A expansão do número de unidades contempladas poderá ocorrer conforme a confirmação do aumento da população de javalis e a demanda por novas ações de controle. A necessidade de monitoramento e adaptação das estratégias é um ponto chave para o sucesso a longo prazo dessas iniciativas de manejo ecológico.
O Impacto Ambiental e a Necessidade de Ações Coordenadas
A presença do javali em áreas de mata nativa e em zonas agrícolas altera significativamente a dinâmica dos ecossistemas. A busca por alimento, que inclui raízes, invertebrados e até pequenos vertebrados, leva à escavação do solo, causando erosão e dificultando o crescimento de novas plantas nativas. Essa perturbação do habitat afeta diretamente as espécies locais, que podem ter seus recursos alimentares e refúgios comprometidos.
A competição por recursos é outro ponto crítico. Espécies nativas que competem por alimento ou espaço com o javali podem sofrer declínio populacional, levando a um desequilíbrio ecológico. A Instrução Normativa Ibama nº 03/2013, ao reconhecer o javali como espécie exótica invasora, fundamenta legalmente a necessidade de medidas de controle para a proteção da fauna nativa.
O envolvimento de cooperativas agroindustriais como a Frísia é um exemplo de como a colaboração entre diferentes setores pode ser eficaz. Ao oferecer insumos que auxiliam nas estratégias de controle, a cooperativa contribui não apenas para a preservação ambiental, mas também para a proteção das propriedades rurais contra os danos causados pelos javalis. Essa interconexão entre conservação ambiental e desenvolvimento sustentável é um modelo promissor para o futuro.
A continuidade e a expansão dessas parcerias são essenciais. O sucesso na gestão de espécies invasoras depende de um esforço contínuo, adaptativo e baseado em evidências científicas. A utilização de grãos como isca, por exemplo, é uma técnica de manejo que requer planejamento cuidadoso para garantir sua eficácia e minimizar impactos não desejados, sempre em conformidade com as diretrizes ambientais vigentes.





