A busca por maximizar a produção energética e otimizar recursos tem impulsionado soluções de engenharia criativas no setor elétrico brasileiro. Um exemplo notável emerge no Sudoeste do Paraná, onde a ampliação da Usina Hidrelétrica Governador Ney Braga (Segredo) promete dobrar sua capacidade instalada sem a expansão de seu reservatório.
A iniciativa, liderada pela Copel, baseia-se na reintrodução de estruturas de engenharia com mais de três décadas de existência. Tais elementos, originalmente concebidos para a fase de construção da barragem, encontram agora um novo propósito, demonstrando a resiliência e a adaptabilidade do planejamento de infraestrutura energética.
O projeto de ampliação prevê a construção de uma segunda casa de força, anexa à estrutura existente. Essa nova edificação abrigará conjuntos de turbinas e geradores modernizados, permitindo um salto significativo na capacidade de geração, de 1.260 para 2.526 megawatts (MW).
A Recontextualização da Infraestrutura Histórica
A viabilidade dessa expansão foi solidificada através de um processo de licitação pública, especificamente no 2º Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP). A proposta da Copel para Segredo, juntamente com a ampliação da Usina Foz do Areia, assegurou recursos para investimentos estimados em R$ 4,9 bilhões, com previsão de conclusão das obras para 2030.
Um dos pilares desta solução inovadora é o aproveitamento de túneis subterrâneos, originalmente escavados nos anos 1980 para o desvio do curso do Rio Iguaçu durante a construção da barragem. Esses túneis, que haviam sido desativados e selados com concreto, foram repensados como dutos para conduzir a água até as novas turbinas.
A genialidade reside na recontextualização de uma infraestrutura antiga, transformando um passivo construtivo em um ativo para a expansão. Essa estratégia não apenas reduz significativamente os custos operacionais e de execução, mas também minimiza impactos ambientais e sociais, ao evitar a necessidade de novas escavações em áreas de vegetação nativa e a interrupção de vias de acesso importantes.
O desafio técnico de reconectar o reservatório aos túneis, após o selamento com concreto, foi superado com a concepção de novos acessos verticais. Este detalhe demonstra a complexidade e a minúcia que envolvem o planejamento e a execução de projetos de engenharia de grande porte.
A elaboração do projeto foi um empreendimento multidisciplinar, integrando saberes de especialistas em áreas como hidráulica, geologia, estruturas e equipamentos eletromecânicos. A colaboração interdepartamental é crucial para refinar o projeto, garantindo que todos os critérios técnicos e de viabilidade sejam atendidos.
Inovação como Pilar Estratégico
O desenvolvimento do projeto ocorreu em um ritmo acelerado, culminando na primeira etapa concluída em maio de 2024, data limite para o protocolo junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Empresas especializadas foram contratadas para otimizar a solução, incorporando tecnologias construtivas e de equipamentos de ponta.
A concepção final das unidades geradoras, por exemplo, evoluiu de uma proposta inicial de três máquinas para duas unidades de maior porte. Essa alteração visa otimizar a eficiência operacional e reduzir custos, evidenciando a busca contínua por aprimoramento ao longo do processo.
Este projeto sublinha a importância de fomentar um ambiente corporativo que incentive a proposição e o desenvolvimento de novas ideias. A inovação, nesse contexto, não é um evento isolado, mas sim um processo contínuo, alimentado pelo conhecimento acumulado e pela abertura para novas abordagens técnicas.
A Copel demonstra, com esta iniciativa, que a inteligência na gestão de recursos existentes pode ser tão poderosa quanto o investimento em novas tecnologias. A reutilização de estruturas planejadas há décadas serve como um farol para a engenharia moderna, mostrando que o futuro da energia pode ser construído, em parte, sobre os alicerces do passado.






