Profissionais de saúde mental e pesquisadores debatem o cenário das políticas de drogas e suas intersecções com violências em um seminário promovido pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O evento, que reúne diversas instituições de ensino superior do país, visa fomentar a troca de conhecimentos e a articulação de estratégias para o enfrentamento de problemáticas complexas.
A necessidade de aprimorar o atendimento a pessoas em crise decorrente do uso de substâncias psicoativas foi um dos pontos centrais discutidos. A Enfermagem brasileira tem se debruçado sobre o desenvolvimento de protocolos de cuidado qualificado, buscando alinhar conceitos e práticas frente a um cenário em constante mutação.
Experiências internacionais foram trazidas à tona, destacando o alerta sobre a potencial escalada da dependência por opioides. A forma como a prescrição médica, mesmo que com intenções terapêuticas, pode inadvertidamente conduzir a quadros de dependência, foi um ponto de atenção compartilhado.
A discussão sobre a crise de opioides nos Estados Unidos serviu como um estudo de caso. A dependência, muitas vezes iniciada com o uso sob prescrição para dor crônica ou em pacientes terminais, ressalta a importância de uma vigilância contínua sobre o uso de substâncias controladas.
No Brasil, a preocupação reside na prevenção de um caminho similar. Profissionais de saúde e acadêmicos buscam antecipar e mitigar riscos, promovendo abordagens mais seguras e eficazes no manejo da dor e no tratamento da dependência.
A articulação interinstitucional e a colaboração entre diferentes conselhos profissionais são consideradas cruciais. A natureza multidimensional da questão das drogas exige a soma de esforços de diversas áreas do conhecimento e da prática.
O papel da Enfermagem na resposta às crises
Uma oficina realizada com a participação de referências em práticas avançadas da Escola de Enfermagem da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, resultou na deliberação de um protocolo de cuidados para pessoas em situação de crise. A iniciativa buscou qualificar profissionais brasileiros para o atendimento a quadros agudos associados ao uso de álcool e outras drogas.
A imersão de dois dias envolveu cerca de 60 profissionais atuantes em saúde mental, atenção primária à saúde, urgência e emergência. O intercâmbio de experiências permitiu um alinhamento conceitual e a definição de diretrizes iniciais para aprimorar a atuação em cenários críticos.
A troca de informações atualizadas sobre o contexto epidemiológico do uso de drogas, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, foi fundamental. A expertise das especialistas americanas ofereceu subsídios importantes para a compreensão do fenômeno e para o desenvolvimento de estratégias de cuidado mais assertivas.
Como resultado direto da oficina, foi elaborado um relatório e uma proposta para a criação de um grupo de trabalho. Este grupo terá a tarefa de consolidar as bases para um modelo inicial de protocolo de Enfermagem focado no cuidado de indivíduos em crise relacionada ao consumo de substâncias.
O Ministério da Saúde, representado pelo Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (Desmad), esteve presente, reforçando a importância da colaboração entre órgãos governamentais e entidades de classe.
Avanços e perspectivas para políticas públicas
O seminário também lançará produtos frutos do projeto de pesquisa e extensão interinstitucional. Dentre eles, destacam-se o Observatório de Políticas de Drogas, Comunidades Terapêuticas e Violências Interseccionais e um curso de extensão voltado para trabalhadores da área.
Essas iniciativas visam aprofundar a pesquisa, a formação e a extensão no campo das políticas de drogas, buscando construir abordagens que considerem as complexas violências interseccionais – aquelas que atravessam raça, gênero, classe e território.
Um chamado à cooperação foi feito a outras entidades profissionais, como o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). A complexidade da temática demanda uma atuação conjunta e integrada para o desenvolvimento de soluções efetivas.
A expectativa é que o debate gerado no seminário culmine em propostas concretas para aprimorar as políticas públicas na área. A construção de estratégias comprometidas com os direitos humanos e a justiça social é um objetivo primordial.
O evento contou com a participação ativa de representantes do Rio de Janeiro no Cofen, que se colocaram à disposição para colaborar com os resultados e encaminhamentos do seminário, fortalecendo a rede de atuação profissional.
Uma nova edição da oficina, desta vez com a participação das professoras de Michigan durante o XXVIII Congresso Brasileiro dos Conselhos de Enfermagem (CBCENF), já está prevista. Esta edição terá transmissão online pela plataforma CofenPlay, ampliando o acesso ao conteúdo.


