A discussão sobre políticas de drogas, o papel das comunidades terapêuticas e as complexas intersecções de violências em diferentes esferas da sociedade brasileira foi tema central de um seminário realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O evento reuniu pesquisadores, profissionais de saúde e estudantes para um amplo debate sobre o tema, com a participação remota de Ellen Marcia Peres, segunda tesoureira e conselheira do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).
A iniciativa, que se desdobra de um projeto de pesquisa e extensão interinstitucional, conta com a colaboração de diversas universidades federais e centros de ensino. O objetivo é promover a troca de saberes e experiências, focando na análise das políticas de drogas em território nacional, no impacto das comunidades terapêuticas e nas violências que afetam grupos específicos, considerando recortes de raça, gênero, classe social e território.
Peres compartilhou durante o seminário a experiência de uma oficina promovida pelo Cofen em junho deste ano. A atividade foi concebida em parceria com professoras doutoras da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, especialistas em práticas avançadas de enfermagem e referências na temática do uso de substâncias psicoativas.
O foco principal dessa oficina foi a discussão inicial para o desenvolvimento de um protocolo de cuidados. Este protocolo visa auxiliar profissionais no atendimento a pessoas em situação de crise aguda decorrente do uso de álcool e outras drogas, buscando aprimorar a resposta clínica em momentos de urgência.
A crise de opioides e o alerta para o Brasil
A conselheira do Cofen destacou a gravidade da crise de dependência de opioides nos Estados Unidos, que teve origem na prescrição médica dessas substâncias para o manejo da dor crônica e em casos terminais. A partir desse cenário, as especialistas americanas emitiram um alerta sobre o risco de o Brasil trilhar um caminho semelhante, caso a prescrição médica dessas substâncias ocorra de forma indiscriminada.
A oficina, que contou com a participação de cerca de 60 profissionais de saúde mental, atenção primária, urgência e emergência, serviu para qualificar a atuação de brasileiros no atendimento a quadros de crise. A atividade permitiu a exposição do contexto epidemiológico do uso de drogas nos EUA e no Brasil, além de evidenciar o processo de cuidado prestado pela enfermagem brasileira a esses pacientes.
A colaboração entre os profissionais brasileiros e as especialistas americanas possibilitou um alinhamento conceitual e o estabelecimento de diretrizes preliminares para uma atuação mais eficaz em situações críticas. O intercâmbio de dados atualizados sobre o consumo de drogas no país foi considerado fundamental para o aprofundamento da temática.
A oficina resultou na elaboração de um relatório e na proposição da criação de um grupo de trabalho. A meta deste grupo é fundamentar a construção de um modelo inicial de protocolo de enfermagem voltado ao cuidado de indivíduos em crise relacionada ao consumo de substâncias, fortalecendo a rede de assistência.
A necessidade de atuação interprofissional e colaborativa
Ellen Peres enfatizou a natureza multidimensional e complexa do problema do uso de substâncias e suas consequências sociais. Diante disso, lançou um chamado à cooperação com o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), ambos representados no seminário. A integração de saberes dessas áreas é vista como essencial para o desenvolvimento de abordagens mais completas e humanizadas.
A conselheira também antecipou que uma nova edição da oficina ocorrerá durante o XXVIII Congresso Brasileiro dos Conselhos de Enfermagem (CBCENF). Esta nova edição contará novamente com a participação das professoras de Michigan e terá transmissão online pela plataforma CofenPlay, ampliando o acesso ao conhecimento para profissionais de todo o país que não puderem comparecer presencialmente.
Representando o Rio de Janeiro no Cofen, Peres colocou-se à disposição das entidades presentes no seminário para colaborar ativamente com os resultados e encaminhamentos que emergirem do encontro. A colaboração interinstitucional é vista como um pilar fundamental para o avanço das políticas públicas e da prática profissional na área.
O seminário contou com a presença de importantes nomes da área, como Ricardo Mattos Russo Rafael, diretor da Faculdade de Enfermagem da UERJ; Rachel Gouveia, professora de Serviço Social da UFRJ; Thessa Guimarães, representante do CFP; e Giselle Souza, representante do CFESS. A programação do evento incluiu mesas de debate e trocas de experiências que visaram discutir os desafios e as oportunidades para a construção de políticas públicas pautadas nos direitos humanos e na justiça social.
Ao final do seminário, foram apresentados produtos relevantes do projeto, como o Observatório de Políticas de Drogas, Comunidades Terapêuticas e Violências Interseccionais, e um curso de extensão voltado para trabalhadores da política de drogas, consolidando os esforços em prol da qualificação e do debate público sobre o tema.

