A Universidade Federal do Paraná (UFPR) inaugurou o “Território do Cuidado”, um espaço dedicado a oferecer suporte e privacidade para mães da comunidade acadêmica. A iniciativa visa fortalecer a permanência de estudantes e servidoras gestantes e lactantes, reconhecendo as demandas do cuidado como parte intrínseca da vida universitária. O ambiente está equipado para amamentação, extração de leite e atividades infantis, buscando mitigar barreiras que historicamente dificultam a trajetória de mães no ensino superior.
A criação deste espaço representa um avanço significativo na promoção da equidade e inclusão dentro da universidade. A estrutura foi desenvolvida em colaboração entre a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe) e os Setores de Ciências Humanas e Jurídicas, com adaptações e recursos providenciados por diversas unidades da UFPR.
A diretora do Setor de Ciências Humanas, Adelaide Pescatori Silva, destacou que o “Território do Cuidado” permite que alunas-mães tragam seus bebês para a universidade e possam amamentá-los durante o período de atividades acadêmicas. Essa permissão garante a continuidade dos estudos sem a necessidade de interrupção, fortalecendo o vínculo entre mãe e filho.
Um dos objetivos centrais da iniciativa é combater a evasão de mães da UFPR. Ao oferecer condições adequadas para atividades de cuidado, a universidade busca conciliar a rotina acadêmica com as responsabilidades maternas.
Melina Fachin, diretora do Setor de Ciências Jurídicas, ressalta a importância de prover um ambiente seguro, confortável e digno para a amamentação e extração de leite. Para ela, essa estrutura, mesmo que pareça um detalhe, pode ser decisiva para que estudantes e servidoras permaneçam ativas em suas jornadas acadêmicas e profissionais.
A Maternidade como Parte da Vida Acadêmica
A concepção do “Território do Cuidado” emerge de um esforço conjunto para redefinir a universidade como um espaço que acolhe as diversas realidades de sua comunidade. A iniciativa, impulsionada pelo Grupo de Trabalho Maternidade/Parentalidade, reflete um reconhecimento de que as necessidades de cuidado não devem ser um entrave à participação plena na vida universitária.
Relatos de mães sobre situações de constrangimento e falta de acolhimento foram fundamentais para a criação do espaço. Muitas servidoras e alunas precisavam improvisar locais para extrair leite, utilizando banheiros, cozinhas ou gabinetes compartilhados, gerando desconforto e insegurança.
A professora Célia Ratusniak, coordenadora da Coordenadoria de Políticas Interseccionais para Equidade de Gênero e Diversidade Sexual (CPIn), explicou que a pesquisa realizada para a estruturação do projeto envolveu a análise de experiências de outras universidades. Essa investigação permitiu identificar pontos fortes e fracos, visando aprimorar a proposta e torná-la um modelo replicável.
A intenção é que o “Território do Cuidado” sirva como um exemplo para outras instituições de ensino superior no Brasil. A UFPR, por sua representatividade, tem o potencial de influenciar a adoção de políticas similares, promovendo um ambiente acadêmico mais inclusivo em todo o país.
A universalização desses espaços dentro da própria UFPR é um objetivo de médio prazo. A Proafe almeja que todos os setores da universidade contem com uma sala “Território do Cuidado”, expandindo o alcance e o impacto da iniciativa.
Universidades e a Política de Cuidado
A criação de salas de amamentação e cuidado vai além de um benefício pontual; representa uma mudança paradigmática na forma como as instituições de ensino superior se relacionam com as necessidades de seus membros. Ao destinar espaço físico e recursos para o cuidado, a universidade legitima essas atividades como parte integrante da vida acadêmica e profissional.
A professora Melina Fachin enfatiza que a universidade pública tem o papel de não apenas produzir conhecimento, mas também de transformar práticas sociais. Reconhecer a amamentação e o cuidado como questões que necessitam de estrutura e visibilidade envia uma mensagem poderosa: que essas não são responsabilidades exclusivas das mulheres, mas sim demandas sociais que exigem apoio institucional.
Essa abordagem contribui para a construção de uma universidade mais inclusiva e comprometida com a igualdade material. Ao garantir que a maternidade não seja um obstáculo, a instituição promove a permanência e o sucesso de um grupo que historicamente enfrentou barreiras significativas para o acesso e a continuidade em ambientes acadêmicos.
A UFPR tem implementado outras ações de apoio, como auxílios financeiros, flexibilização de prazos acadêmicos e grupos de acolhimento, fortalecendo a política de permanência para estudantes mães. Essas medidas, em consonância com a Política Institucional de Permanência para Estudantes Mães de 2026, visam criar um ambiente de maior suporte e igualdade de oportunidades.
A iniciativa do “Território do Cuidado” se insere em um contexto mais amplo de políticas de permanência e apoio estudantil. Ao normalizar a presença de mães e crianças no ambiente universitário e prover a infraestrutura necessária, a UFPR reforça seu compromisso com a educação como um direito acessível a todos, independentemente de suas responsabilidades familiares.





