UFPR promove debate sobre educação escolar quilombola com comunidades e educadores

🕓 Última atualização em: 15/09/2026 às 11:36

O I Encontro Regional de Educação Escolar Quilombola da Região Sul, realizado nos dias 10 e 11 de setembro na Universidade Federal do Paraná (UFPR), reuniu um público diversificado para discutir os desafios e as perspectivas da educação em comunidades quilombolas. O evento contou com a presença de representantes quilombolas do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além de acadêmicos, professores e gestores do Ministério da Educação (MEC).

O tema central, “Entre territórios e saberes: desafios e caminhos da educação escolar quilombola no Sul do Brasil”, norteou debates sobre a importância do reconhecimento dos saberes tradicionais e a participação ativa das comunidades na definição de seus processos educativos. A necessidade de incorporar a cultura e a identidade quilombola no currículo escolar foi um dos pontos de destaque nas discussões.

Representantes de comunidades quilombolas compartilharam suas experiências e visões sobre a educação, ressaltando a urgência de políticas públicas que contemplem suas especificidades. A interação entre os diferentes atores sociais permitiu a troca de conhecimentos e a identificação de estratégias para o fortalecimento da educação escolar quilombola na região.

A Universidade Federal do Paraná, ao sediar o encontro, reafirmou seu compromisso com a promoção da igualdade e o reconhecimento da diversidade. A participação de pesquisadores e estudantes da instituição demonstra a crescente preocupação acadêmica com as questões quilombolas.

Para a vice-reitora da UFPR, Camila Girardi Fachin, o papel das universidades públicas é fundamental no que tange à inclusão de diferentes saberes, especialmente os quilombolas. Ela enfatizou que a proposta não é “fazer educação para os quilombolas, mas sim fazer educação com os quilombolas”, promovendo uma relação de parceria e respeito mútuo.

Essa parceria se reflete na pesquisa desenvolvida na UFPR, que inclui núcleos e polos dedicados ao estudo das temáticas quilombolas. A presença de estudantes quilombolas em programas de pós-graduação é vista como um avanço significativo, pois garante que as comunidades não sejam apenas objeto de estudo, mas sujeitos ativos na produção do conhecimento.

A Dimensão da Participação e Identificação Quilombola

A integração das comunidades quilombolas no ambiente acadêmico e na formulação de políticas educacionais é um processo complexo que exige a superação de barreiras históricas e estruturais. A vice-reitora reiterou o conceito de “nada sobre nós sem nós”, sublinhando a importância da participação quilombola em todas as etapas dos processos educacionais.

A atuação da UFPR é fortalecida pela Coordenadoria de Políticas para Pessoas Indígenas, Negras e Quilombolas (CPPINQ), vinculada à Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e Equidade (Proafe). Essa instância tem um papel crucial na articulação de ações e no diálogo com as comunidades.

Romilda Aparecida da Silva, da CPPINQ, destacou um dos principais desafios: a dificuldade na identificação precisa da população quilombola em todos os níveis de escolarização, incluindo dentro da própria universidade. A assimetria nos dados disponíveis dificulta a visualização completa da realidade e a implementação de políticas mais eficazes.

“Essa assimetria de dados nos leva a refletir e problematizar a importância da identificação dessas pessoas na escolarização como um todo”, afirmou Silva. Ela ressaltou que a falta de dados consistentes pode perpetuar desigualdades e dificultar o acesso a direitos garantidos por lei.

No âmbito da UFPR, o projeto TED Quilombo tem se dedicado à construção de uma cartografia detalhada da população quilombola no estado do Paraná. Esta iniciativa abrange não apenas dados demográficos, mas também informações sobre os territórios e as trajetórias formativas dos quilombolas, visando um conhecimento mais aprofundado sobre quem são essas pessoas e de quais regiões elas provêm.

O objetivo é criar um mapa que permita não só a identificação, mas também a compreensão da dinâmica social e territorial dessas comunidades. Essa cartografia é essencial para que a universidade e os órgãos públicos possam planejar ações mais direcionadas e assertivas, promovendo a inclusão e o respeito às especificidades quilombolas.

Políticas Públicas e o Futuro da Educação Quilombola

O reconhecimento da educação escolar quilombola como um direito e a garantia de sua implementação efetiva são pilares fundamentais para a preservação e valorização das identidades culturais desses povos. O I Encontro Regional de Educação Escolar Quilombola da Região Sul foi um passo importante nesse sentido, ao promover um diálogo construtivo entre as comunidades, a academia e o poder público.

A articulação entre os diferentes níveis de governo e as instituições de ensino é crucial para a criação de políticas públicas robustas e adaptadas às realidades locais. O Ministério da Educação, presente no evento, sinalizou a importância de ouvir as demandas das comunidades para a construção de diretrizes curriculares e programas de formação de professores que valorizem os saberes quilombolas.

O fortalecimento de iniciativas como o TED Quilombo e o trabalho da CPPINQ na UFPR são exemplos de como as universidades podem atuar proativamente na promoção da equidade racial e no combate às discriminações. A busca por dados mais precisos e a criação de ferramentas que permitam uma melhor identificação da população quilombola são estratégias essenciais para que nenhuma comunidade seja deixada para trás.

A participação ativa dos quilombolas nos processos decisórios sobre suas vidas e sua educação é um princípio inegociável. Somente com essa colaboração será possível construir um sistema educacional verdadeiramente inclusivo e que reflita a riqueza e a diversidade do Brasil.

O avanço na educação escolar quilombola não se limita à sala de aula, mas abrange a garantia de direitos territoriais, o acesso à justiça e o reconhecimento cultural em sua plenitude. O debate iniciado no encontro em Curitiba deve reverberar em ações concretas que transformem a realidade dessas comunidades e fortaleçam a educação para todos.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *