A revalidação de diplomas de migrantes e refugiados no Brasil atingiu um marco histórico. No último processo seletivo conduzido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), 231 profissionais estrangeiros tiveram suas qualificações reconhecidas, superando a soma dos seis editais anteriores. Esta iniciativa, que completa uma década em 2026, representa um avanço significativo nas políticas migratórias, ampliando as oportunidades de inserção no mercado de trabalho e proporcionando maior autonomia e reconhecimento aos indivíduos.
A conquista vai além do reconhecimento burocrático de um documento. Para muitos, como a cientista da computação cubana Karelia Rodríguez, é a materialização de um sonho e o fim de uma fase de incertezas. Após deixar seu país em busca de novas perspectivas, ela enfrentou os desafios da adaptação cultural e linguística no Brasil. A revalidação de seu diploma, embora exigente em termos de paciência e organização, permitiu que ela retomasse sua trajetória profissional.
Karelia agora atua na área de Marketing, mas com o diploma em mãos, planeja direcionar seus esforços para sua área de formação original, visando o crescimento profissional e a realização de seus objetivos de carreira. Ela descreve o processo como uma prova de que o esforço valeu a pena, um passo fundamental para seu desenvolvimento.
Outro exemplo inspirador é o de Mariangel Palma, venezuelana formada em Psicologia. Após exercer a profissão por seis anos em seu país, ela precisou cursar disciplinas complementares na UFPR para ter seu diploma reconhecido no Brasil. A experiência acadêmica na universidade tem sido enriquecedora, permitindo o aprimoramento de seus conhecimentos e a interação com outros profissionais.
Mariangel destaca a importância do apoio recebido de professores e funcionários da UFPR durante esse período. Com a revalidação concluída, ela almeja realizar uma pós-graduação em desenvolvimento infantil, um passo que a aproximará ainda mais de seu sonho de atuar na área que ama.
Articulação Institucional Impulsiona Integração de Migrantes
O sucesso na revalidação de diplomas é fruto de uma complexa articulação entre diversas instâncias da UFPR, em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Essa colaboração se manifesta por meio da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, iniciativa que visa promover a integração local de pessoas deslocadas à força, como refugiados, solicitantes de refúgio e portadores de visto de acolhida humanitária.
O processo de revalidação de diplomas estrangeiros no Brasil é regulamentado pelo Ministério da Educação (MEC), que estabelece que universidades públicas com cursos equivalentes aos do exterior são responsáveis por conduzir o processo. Embora a plataforma oficial para isso seja a Plataforma Carolina Bori, a UFPR desenvolveu um fluxo próprio, buscando simplificar etapas para migrantes e refugiados em situação de vulnerabilidade.
O Núcleo de Concursos (NC), a Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional (Prograp), a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe) e o Escritório de Relações Internacionais (ERI) desempenham papéis cruciais nesse esforço coordenado. O NC, por exemplo, utiliza sua equipe de comunicação para divulgar o processo e manter um diálogo estreito com a Cátedra e o ERI, garantindo o alcance a pessoas em situação de refúgio. A universidade reitera sua missão de construir uma sociedade inclusiva e solidária.
A Coordenadoria de Acolhimento e Trajetórias Acadêmicas de Estudantes Internacionais e Migrantes (Catrim), vinculada ao ERI, atua preventivamente, organizando fluxos e dialogando com setores internos da universidade para tornar o processo mais acessível. Nathielly Santos, coordenadora da Catrim, enfatiza que a revalidação transcende o reconhecimento de um documento; trata-se de validar trajetórias, formações e histórias, muitas vezes marcadas por deslocamentos forçados.
Em um contexto de crescentes discursos excludentes, a universidade assume um papel fundamental na promoção de caminhos de inclusão e garantia de direitos. A professora Elaine Cristina Schmitt Ragnini, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello na UFPR, explica que a demanda reprimida, especialmente após uma normativa do MEC que restringiu o processo próprio em 2025, contribuiu para o recorde de diplomas revalidados. A necessidade de processos próprios se torna ainda mais premente quando imigrantes não dispõem de todos os documentos exigidos pela plataforma oficial devido às circunstâncias de seus deslocamentos.
A precariedade da inserção profissional de migrantes, muitas vezes sujeitos à exploração, é um obstáculo adicional. A desvalorização social, a crise de identidade e o sofrimento psíquico decorrente do exercício de funções aquém de suas qualificações são realidades que a revalidação busca mitigar, promovendo o reconhecimento profissional e a dignidade.
Projetos de Extensão Ampliam o Alcance da Inclusão
Além do processo de revalidação de diplomas, a UFPR mantém uma série de projetos de extensão ligados à Cátedra Sérgio Vieira de Mello/ACNUR. Essas iniciativas abrangem diversas áreas, como Psicologia, Direito, Sociologia e Design, abordando temas que vão desde movimentos migratórios e hospitalidade até a observação de trajetórias acadêmicas e a culinária migrante.
Esses projetos demonstram um compromisso multifacetado da universidade em promover a integração e o bem-estar de migrantes e refugiados. Eles oferecem suporte não apenas na esfera profissional, mas também na adaptação cultural, no aprendizado do idioma e na compreensão das dinâmicas sociais e legais do Brasil.
O programa de extensão “Refúgio e Migração em Extensão” é operacionalizado pela UFPR e inclui iniciativas como o MOVE – Movimentos Migratórios e Psicologia, Refúgio, Migrações e Hospitalidade, e o Observatório das Migrações no Paraná. Há também o projeto de Português Brasileiro para a Migração Humanitária (PBMIH) e o Ecossistemas de Integração de Migrantes no Mundo do Trabalho.
Adicionalmente, a UFPR oferece um processo seletivo próprio para que migrantes e refugiados possam ingressar em cursos de graduação, com o edital de 2027 já disponível. Essas ações conjuntas evidenciam uma estratégia institucional robusta voltada para a acolhida e a plena participação de indivíduos em situação de refúgio e migração na sociedade brasileira, fortalecendo a inclusão social e o desenvolvimento humano.






