O Litoral do Paraná, impulsionado pela recente inauguração da Ponte de Guaratuba, tem atraído atenção significativa de investidores, com o segmento imobiliário figurando como um dos principais focos. Paralelamente a projetos como a futura marina em Guaratuba, onde operava o ferry-boat, a cidade presencia estudos para a requalificação de um antigo resort, embargado desde 2014 e recentemente leiloado. Essa iniciativa de retrofit, termo utilizado pelo mercado para a revitalização de espaços ociosos, marca um momento de transformação na região.
O projeto, provisoriamente batizado de “Pé na Areia”, ainda não foi lançado comercialmente. Contudo, sua concepção abre um importante debate sobre os caminhos do retrofit em cidades que carecem de instrumentos legais específicos para esse tipo de intervenção. A estratégia visa devolver valor a estruturas existentes, evitando desperdício de recursos e minimizando impactos ambientais, conforme salientam os arquitetos Paula Morais e Rogério Shibata, à frente das análises.
O Estúdio Convexo Arquitetura, de Curitiba, responsável pelo projeto desde 2025, também lidera o desenvolvimento do La Vista, o maior edifício em construção atualmente no litoral paranaense, em Guaratuba. Essa dupla atuação em projetos distintos – um de nova edificação e outro de requalificação – sinaliza a efervescência do mercado e a busca por soluções que otimizem o uso do solo e do patrimônio construído.
A proposta para o antigo resort envolve uma mudança estratégica de programa. A ideia é converter o uso originalmente hoteleiro para o residencial, utilizando os parâmetros legais vigentes. O trabalho abrange desde a revisão técnica e o redesenho arquitetônico até o diálogo contínuo com o poder público, essencial para garantir a segurança jurídica do investimento, um dos principais entraves para intervenções de retrofit fora dos grandes centros urbanos.
O Potencial do Retrofit em Centros Turísticos
Em cidades com forte apelo turístico, como Guaratuba, a carência de incentivos fiscais específicos para a requalificação de estruturas existentes torna o processo mais complexo. A viabilização de empreendimentos dessa escala exige uma articulação técnica e institucional robusta, demonstrando a necessidade de políticas públicas que contemplem a renovação urbana.
A experiência prévia do Estúdio Convexo Arquitetura em Foz do Iguaçu, com o projeto Vila Giardino em 2022, que transformou uma edificação abandonada por mais de duas décadas em um empreendimento residencial regularizado, evidencia um cenário comum no Brasil. A falta de legislação adequada para o retrofit em muitas municipalidades resulta em longos processos de documentação, adequações técnicas e negociações institucionais.
Ainda que o litoral paranaense avance com novos empreendimentos, o escritório de arquitetura acompanha de perto o debate sobre a requalificação das áreas centrais em Curitiba. Iniciativas como a de Guaratuba demonstram que a recuperação de estruturas existentes pode transcender a esfera de um problema urbano e se consolidar como uma estratégia de desenvolvimento, desde que a segurança jurídica e políticas públicas eficazes acompanhem essa transformação.
Desafios e Oportunidades na Requalificação Urbana
A obsolescência de edificações e a ociosidade de espaços públicos e privados são desafios urbanos recorrentes em diversas cidades brasileiras. O retrofit surge como uma alternativa promissora para mitigar esses problemas, promovendo a revitalização de áreas degradadas e a otimização do uso do solo.
No entanto, a efetivação de projetos de requalificação urbana exige um arcabouço legal e normativo que incentive e facilite tais intervenções. A ausência de instrumentos como incentivos fiscais, simplificação de processos burocráticos e diretrizes claras para a conversão de uso pode dificultar a atratividade desses empreendimentos para investidores.
A experiência de Guaratuba, com o estudo para o antigo resort, aponta para um caminho de desenvolvimento sustentável e inteligente, que valoriza o que já foi construído. A colaboração entre o setor privado e o poder público é fundamental para superar os entraves e consolidar o retrofit como uma ferramenta estratégica para o futuro das cidades, impulsionando a economia e melhorando a qualidade de vida urbana.






