Um estabelecimento comercial histórico no coração de Curitiba, a Mercearia S. Jorge, celebra em breve seu 65º aniversário de funcionamento ininterrupto. Localizada na Rua Amintas de Barros, nº 476, a mercearia se tornou um marco na região, próxima à reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Fundada em julho de 1961, a mercearia representa uma longevidade notável em um cenário urbano em constante transformação.
A história do local começou com José Cziulikowski, um imigrante polonês que se estabeleceu em Curitiba vindo de São Paulo. Ele iniciou o empreendimento com seu irmão, e desde então, o endereço tem sido o mesmo. A mercearia antecede até mesmo outro ponto de referência cultural da cidade, a Livraria do Chaim, aberta em 1967.
O próprio estabelecimento foi palco de momentos significativos na vida de Teresinha Dominga Cziulikowski, proprietária atual e descendente de italianos. Foi na mercearia que ela conheceu José, com quem construiu uma família e compartilhou 40 anos de casamento, até o falecimento dele, ocorrido há 18 anos. Desta união, nasceram três filhos: Edson, Ednea e Dani, cada um seguindo carreiras distintas como engenheiro, economista e instrumentadora cirúrgica, respectivamente.
O Legado de Uma Mulher e Sua Mercearia
Teresinha, aos 80 anos, continua a ser a alma da Mercearia S. Jorge. Sua dedicação se estende desde a produção artesanal de pães, bolos e bolachas, que são destaque entre os produtos oferecidos, até o atendimento direto ao público e a gestão do estoque. Ela opera a loja de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h30, desempenhando diversas funções.
A proprietária relata que, ao longo dos anos, contou com a ajuda de funcionários. Contudo, a dificuldade em reter pessoal levou-a a gerir o negócio sozinha nas tarefas diárias. A mercearia, apesar de sua aparente simplicidade, serviu como ponto de encontro e atendimento para figuras notáveis da cidade. Entre os clientes frequentes, destacam-se nomes como o escritor Dalton Trevizan, o músico Ivo Rodrigues, vocalista da banda Blindagem, e o renomado arquiteto e ex-governador do Paraná, Jaime Lerner.
A perseverança de Teresinha é visível em sua relação com o negócio. Ela descreve a si mesma como “teimosa”, expressando o desejo de manter a mercearia funcionando enquanto tiver forças. Para ela, o local transcende a mera atividade comercial; é um espaço de interação social e de compartilhamento de histórias. As conversas com os clientes enriquecem seu dia a dia e conferem à mercearia um caráter de comunidade.
Um Ponto de Encontro e Memória na Paisagem Urbana
A longevidade da Mercearia S. Jorge é um testemunho da capacidade de alguns estabelecimentos de se reinventarem e permanecerem relevantes em um ambiente cada vez mais dominado por grandes redes e pela digitalização. Sua estrutura física, que se mantém fiel ao seu estilo original, evoca um senso de nostalgia e autenticidade.
A presença de figuras públicas como clientes, a menção a conversas sobre antigas transações de queijo e até a proposta de Jaime Lerner para uma partida de baralho demonstram como a mercearia se consolidou como um espaço de convivência e não apenas de comércio. A fala de Teresinha ressalta que não se trata de “sofrimento” manter o negócio, mas sim de uma escolha consciente de permanecer em um ambiente que lhe traz satisfação e um senso de propósito.
O caso da Mercearia S. Jorge pode servir como um estudo de caso para entender a importância de pequenos comércios na preservação da identidade cultural e social de um centro urbano. A manutenção desse tipo de estabelecimento, com sua história e seu atendimento personalizado, contribui para a diversidade e a vitalidade das cidades, oferecendo experiências que vão além da simples aquisição de produtos.






