O início do século XX no Rio de Janeiro foi marcado por um processo de profunda transformação urbana, impulsionado por políticas de modernização que relegaram camadas significativas da população às periferias. A derrubada de centenas de edificações para dar lugar a uma nova paisagem arquitetônica, inspirada em modelos europeus, não apenas alterou a fisionomia da capital, mas também cristalizou uma divisão social e espacial. Essa reconfiguração urbana, protagonizada pelo prefeito Pereira Passos, serviu de pano de fundo para a vivência e a obra de Afonso Henriques de Lima Barreto, um escritor cujas memórias e observações capturaram as nuances da vida nesses novos espaços periféricos.
A expansão ferroviária, elemento central da modernização da época, atuou como um divisor geográfico, delimitando as áreas centrais em detrimento das regiões mais afastadas. Lima Barreto, cuja obra é frequentemente revisitada e analisada, vivenciou e descreveu com maestria a consolidação dessas áreas como refúgios para os menos favorecidos.
O escritor, nascido em 13 de maio de 1881, emergiu como um cronista aguçado das disparidades sociais. Sua produção literária, permeada por traços autobiográficos, explorou a fundo a realidade do subúrbio, transformando-o em um cenário recorrente e emblemático de suas narrativas.
A pesquisadora Milena Dantas, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), debruçou-se sobre o universo literário de Lima Barreto, com foco especial em suas crônicas. A análise buscou desvendar a representação simbólica e espacial do subúrbio na obra do autor.
A Periferia Além dos Trilhos: Um Espaço de Resistência e Crítica
A emergência do subúrbio no Rio de Janeiro pode ser compreendida sob duas perspectivas: a física e a simbólica. Geograficamente, refere-se às terras que se situam entre as regiões centrais urbanizadas — resultado da industrialização e da expansão da infraestrutura ferroviária — e as áreas rurais.
Contudo, após as reformas urbanas e o avanço da malha ferroviária, o subúrbio sofreu um processo que pode ser descrito como um “rapto ideológico”. Ele deixou de ser meramente uma definição geográfica para se tornar o território que se estendia para além dos trilhos, um espaço de moradia para a população mais pobre.
Essa nova conotação associou o subúrbio à pobreza, ao abandono estatal e à precariedade. Tornou-se o refúgio daqueles que nunca tiveram acesso a oportunidades, como os ex-escravizados e seus descendentes, e daqueles que, apesar de terem tido alguma chance, não conseguiram prosperar.
Para Lima Barreto, esse espaço era um “refúgio dos infelizes”, uma descrição carregada de crítica e empatia. Sua perspectiva era a de um indivíduo que vivenciou as limitações impostas pela sua posição social, marcada pelo contexto racial e desigual da República Velha.
A pesquisa de Dantas ressalta que o subúrbio retratado por Lima Barreto era um espaço em constante dinamismo. De um lado, as antigas propriedades rurais e, de outro, a faixa de terra que acompanhava a linha férrea central. Essa dualidade demonstra a crítica do autor aos processos de modernização que se mostravam excludentes.
A própria disposição de Lima Barreto em ser sepultado fora do subúrbio, um pedido registrado por sua família, pode ser interpretada como um reflexo da complexa relação de pertencimento e distanciamento que ele estabeleceu com esse território.
O Legado de Lima Barreto: Um Legado de Reflexão Social
A obra de Lima Barreto transcende a mera descrição de um período histórico. Suas análises sobre o subúrbio e a condição humana no contexto das desigualdades sociais continuam a ressoar e a provocar reflexões profundas.
Ao eleger a periferia como palco central de sua escrita, Lima Barreto não apenas documentou uma realidade, mas também ofereceu um olhar crítico sobre os mecanismos de exclusão social e a hipocrisia de uma sociedade que se pretendia moderna, mas que reproduzia antigas mazelas.
Seu legado é um convite à análise das políticas públicas e de suas consequências na vida das populações marginalizadas. A importância de se compreender o espaço urbano não apenas como um conjunto de edificações, mas como um reflexo das relações sociais e de poder.






