A história pulsante de Curitiba ganha vida nas ruas através de uma metodologia inovadora de educação patrimonial. O professor Rogério Bealpino tem se destacado por suas aulas-passeio, que transformam a cidade em uma sala de aula a céu aberto, convidando moradores e visitantes a redescobrirem suas raízes por meio de roteiros temáticos. A iniciativa busca aproximar o público da história local de forma vivencial e sensorial, indo além da simples observação de monumentos.
Essa abordagem empírica de aprendizado, inspirada em modelos pedagógicos europeus, propõe uma imersão direta no ambiente urbano. O objetivo é evidenciar como elementos cotidianos e construções aparentemente simples carregam consigo narrativas ricas sobre o desenvolvimento da cidade. A proposta de Bealpino tem conquistado um público fiel, majoritariamente curitibano, que busca uma conexão mais profunda com o patrimônio material e imaterial de sua metrópole.
Desde 2021, Bealpino já desenvolveu cerca de 15 roteiros distintos, cada um focado em aspectos específicos da trajetória curitibana. Um dos passeios mais emblemáticos reconstrói os passos da visita de D. Pedro II à cidade em 1880, permitindo que os participantes caminhem pelos mesmos locais percorridos pela comitiva imperial. Essa aula-passeio resgata a importância histórica do evento e como ele impactou a preservação de marcos urbanos que perduram até os dias atuais.
Outro roteiro de grande relevância aborda o papel fundamental da erva-mate no crescimento e urbanização de Curitiba e do Paraná. Longe de ser um produto exclusivo do Sul do país, a erva-mate teve um papel crucial na economia e no desenvolvimento inicial da capital paranaense, sendo responsável pela fundação de importantes ervateiras e pelo enriquecimento de famílias locais, uma influência que se estende até hoje.
Aprofundando o Olhar sobre a História Urbana
A metodologia de Rogério Bealpino vai além de narrar fatos históricos; ela incentiva a percepção de que a história está impregnada em cada canto da cidade. Um exemplo notório é a exploração do Centro Histórico, que abriga vestígios que remontam aos séculos XVII e XVIII. Locais como a Praça Tiradentes, berço da primitiva Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, e o Largo da Ordem, com a histórica Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas, tornam-se palcos vivos do passado.
O professor também dedica aulas-passeio à observação de relógios urbanos, desde os mais modernos até os vestígios de mecanismos antigos. O relógio da Rua 24 Horas, o primeiro digital de Curitiba na Rua XV, o relógio do Paço da Liberdade instalado em 1916 e o mais antigo relógio de sol em uma praça pública, datado de 1866 e localizado na Praça Tiradentes, são exemplos de como a tecnologia e o tempo moldaram a paisagem urbana.
A narrativa histórica se estende a elementos mais discretos, como a Rua São Francisco, antigamente conhecida como Rua do Fogo em virtude de sua primeira casa de fundição. A região, que abrigou posteriormente uma ferraria e o ateliê do artista Ricardo Todd, responsável pela obra do “Cavalo Babão”, guarda em seu mobiliário urbano um tesouro histórico.
Uma pequena argola de metal, quase despercebida no meio-fio da Rua São Francisco, revela a grandiosidade de seu passado. Acredita-se que essa peça, remontando ao século XVIII, era utilizada para a amarração de cavalos, evidenciando um cotidiano já extinto. Esse fragmento, embora de aparência humilde, serve como um potente monumento histórico, capaz de evocar uma era distante e enriquecer a compreensão do patrimônio curitibano.
Das Escolas para as Ruas: A Evolução da Metodologia Pedagógica
A trajetória de Bealpino na área de educação patrimonial começou com sua formação em Desenho pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Sua primeira incursão em visitas guiadas e arte-educação ocorreu em 2004, atendendo escolas em passeios pelo Centro Histórico, enquanto estagiava no Memorial de Curitiba. Anos de atuação em espaços culturais como o Museu de Arte Contemporânea do Paraná e a Caixa Cultural solidificaram sua experiência.
O ponto de virada para a retomada das aulas-passeio ocorreu em 2021, impulsionado por um projeto de história em quadrinhos (HQ) que exigia contrapartidas sociais. As visitas guiadas pela cidade, utilizando a HQ como guia, geraram uma demanda expressiva, reacendendo a ideia de levar a história para o espaço público de forma mais estruturada e intencional.
Antes de voltar às ruas, Bealpino investiu em uma forte presença digital, disseminando conteúdos sobre a história de Curitiba em plataformas como Instagram, TikTok, Facebook, Spotify e YouTube. Essa estratégia visava não apenas informar, mas também engajar o público, convidando-o a participar das aulas-passeio e vivenciar a cidade de maneira ativa, transformando o aprendizado em uma experiência imersiva e compartilhada.






