Paraná fecha 150 hospitais na última década

🕓 Última atualização em: 22/05/2026 às 19:48

O setor hospitalar privado do Paraná enfrenta um cenário de severa instabilidade financeira, culminando no fechamento de aproximadamente 150 instituições ao longo da última década. Segundo o Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Paraná (Sindipar), a pressão econômica tem não apenas levado ao encerramento de atividades, mas também imposto um “travamento” no crescimento operacional, dificultando o fluxo de caixa, a renovação de infraestruturas e a expansão de serviços.

Essas instituições que encerraram suas atividades, majoritariamente de pequeno e médio porte e localizadas no interior do estado, sucumbiram em grande parte devido à incapacidade de gerenciar o complexo sistema de glosas. As glosas ocorrem quando as operadoras de planos de saúde recusam, total ou parcialmente, o pagamento por procedimentos, exames ou internações. Somado a isso, a demora excessiva no recebimento de pagamentos pelos serviços já prestados agrava o quadro.

O presidente do Sindipar, Álvaro Quintas, ressalta que essa situação compromete diretamente a sustentabilidade da rede hospitalar privada. Os hospitais operam 24 horas por dia, exigindo manutenção constante de equipes médicas, de enfermagem, medicamentos e tecnologia. Contudo, os pagamentos são frequentemente retidos por longos períodos devido a discussões administrativas e comerciais, comprometendo o fluxo de caixa essencial para a continuidade dos serviços.

Impacto financeiro: Operadoras em alta, hospitais em baixa

Dados da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) pintam um quadro de contrastes preocupantes. Enquanto as operadoras de planos de saúde registraram lucros recordes em 2024, chegando a R$ 11,1 bilhões, um aumento expressivo de 275% em relação ao ano anterior, os hospitais privados lidam com uma queda acentuada em suas margens operacionais e um aumento generalizado de despesas.

A projeção para 2025, segundo a Anahp, aponta para um cenário ainda mais desafiador para 62,64% dos hospitais associados. A margem EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) dos hospitais sofreu uma redução de 40% em 2025. Esse estrangulamento financeiro levou cerca de 41% dos estabelecimentos a reduzirem investimentos em 2024, impactando diretamente a capacidade de modernização e expansão.

O drama das glosas e a ascensão da verticalização

As glosas atingiram níveis históricos, impactando severamente o faturamento e o caixa dos hospitais. Em determinados períodos de 2025, a glosa inicial chegou a quase 18%, enquanto o prazo médio para que os hospitais recebessem pelos serviços prestados ultrapassou os 78 dias. Em 2024, as operadoras de planos de saúde retiveram um montante de R$ 5,8 bilhões em serviços, o que representou 15,89% do faturamento total das instituições hospitalares.

Na prática, isso significa que os hospitais arcam com todos os custos da operação e do atendimento, muitas vezes aguardando meses por recursos que deveriam ser rapidamente reincorporados ao seu caixa. Esse ciclo financeiro invertido cria um desequilíbrio substancial no setor.

Paralelamente, observa-se o fenômeno da verticalização por parte das operadoras de saúde. Isso se manifesta através do descredenciamento de redes hospitalares conveniadas e a consequente construção ou aquisição de hospitais próprios. Um exemplo notório na Grande Curitiba envolveu a descredenciação de quatro grandes hospitais por uma operadora com 120 mil beneficiários, sem qualquer compensação financeira proporcional.

Essa dinâmica resulta em um sistema onde os hospitais acabam por financiar parte da cadeia da saúde suplementar. Enquanto os pagamentos ficam represados, as operadoras utilizam esses recursos em suas operações financeiras, gerando um descompasso insustentável.

Eficiência e ocupação em ascensão, apesar das adversidades

Apesar do cenário adverso, o setor hospitalar privado brasileiro tem demonstrado avanços significativos em eficiência operacional e qualidade assistencial. Indicadores divulgados pela Anahp apontam para uma redução no tempo médio de internação, queda nas taxas de mortalidade operatória e aprimoramento nos protocolos clínicos e nos índices de infecção hospitalar.

A média de permanência hospitalar, por exemplo, caiu para 3,66 dias em 2025. Concomitantemente, a taxa de ocupação hospitalar atingiu quase 80%, consolidando-se como uma das mais altas registradas historicamente. Estes dados sugerem uma capacidade de gestão e otimização dos recursos, mesmo diante das pressões financeiras impostas pelo mercado.

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