Há mais de 150 anos, em 8 de setembro de 1871, o estado do Paraná deu um passo significativo em direção à saúde pública com a inauguração de seu primeiro sistema de encanamento de água. A infraestrutura pioneira, concebida pelo engenheiro Antonio Rebouças Filho, um dos primeiros engenheiros negros do Brasil, ligava uma fonte da Praça da Misericórdia, hoje conhecida como Praça Rui Barbosa, ao Largo da Ponte, atual Praça Zacarias, em Curitiba. Este marco representou uma solução vital para o abastecimento da capital paranaense em uma época onde a população de cerca de 12 mil habitantes dependia predominantemente de poços domésticos ou da busca de água em fontes e rios distantes.
Antes da implementação deste sistema, o Chafariz do Nogueira era o principal ponto de distribuição de água na cidade. Este chafariz, o primeiro de Curitiba, foi construído a pedido do presidente da Província do Paraná em 1862. A iniciativa de Rebouças Filho, contudo, representou uma evolução substancial na captação e distribuição, melhorando diretamente a qualidade de vida e as condições sanitárias da população.
A nova rede de água buscou não apenas facilitar o acesso à água potável, mas também estabelecer normas sanitárias básicas para o consumo. O Chafariz da Praça Zacarias, um elemento ainda visível e parte importante deste primeiro sistema, servia como ponto de distribuição para pipeiros, aguadeiros e escravos, além de auxiliar aqueles que não possuíam recursos para pagar por entregadores de água. Era explicitamente proibido lavar roupas ou dar água a animais no chafariz, uma medida preventiva que demonstrava uma preocupação precoce com a pureza da água destinada ao consumo humano.
A Evolução do Saneamento e a Institucionalização de Políticas Públicas
A jornada rumo a um saneamento mais robusto em Curitiba e no Paraná continuou, culminando em uma significativa modernização no ano de 1908. Nesta época, foi implementado um novo sistema de encanamento público, com a captação de água proveniente dos Mananciais da Serra, localizados no atual município de Piraquara, na região metropolitana. Paralelamente, iniciou-se o funcionamento da primeira rede de coleta de esgoto da cidade, um avanço crucial para a saúde pública e o meio ambiente.
A responsabilidade por essas obras de saneamento recaiu diretamente sobre a prefeitura e órgãos específicos, como a Diretoria de Água e Esgotos e o Departamento de Água e Esgotos (DAE). Esses órgãos foram fundamentais na condução dos projetos e na gestão dos serviços. A consolidação desses esforços em uma entidade dedicada à temática se concretizou em 1963 com a criação da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar).
A Sanepar, inicialmente focada na capital, expandiu sua atuação ao longo das décadas. Atualmente, a companhia é responsável por operar sistemas de saneamento em um número expressivo de municípios, estendendo sua cobertura para 345 cidades paranaenses. Essa expansão reflete a importância estratégica do saneamento básico como política pública essencial, visando garantir o acesso à água tratada, a coleta e o tratamento de esgoto para uma parcela cada vez maior da população.
O Legado e a Importância Contínua do Saneamento Básico
O primeiro sistema de encanamento de água do Paraná, embora hoje possa ser visto apenas como um marco histórico, representa o embrião de um serviço público indispensável. A visão pioneira de engenheiros como Antonio Rebouças Filho lançou as bases para o desenvolvimento de uma infraestrutura que é vital para a saúde coletiva e o desenvolvimento socioeconômico do estado. A transição de fontes naturais e chafarizes para redes de distribuição controladas foi um salto qualitativo em termos de segurança hídrica e prevenção de doenças.
A criação e o fortalecimento de empresas como a Sanepar demonstram o reconhecimento da necessidade de uma gestão profissionalizada e integrada dos serviços de saneamento. A expansão da cobertura desses serviços para centenas de municípios não é apenas um feito administrativo, mas um testemunho do compromisso com a universalização do acesso à água potável e ao saneamento básico, direitos fundamentais que impactam diretamente a qualidade de vida, a expectativa de vida e a sustentabilidade ambiental.






