O outono e a iminente chegada do inverno trazem consigo um fenômeno natural e crucial para a biodiversidade marinha: a migração de diversas espécies para áreas de alimentação e reprodução. O litoral do Paraná se transforma, a cada ano, em um corredor biológico importante, recebendo animais que percorrem longas distâncias, vindos de regiões mais ao sul e até mesmo de águas antárticas. Aves marinhas, mamíferos como lobos e focas, e grandes cetáceos são avistados com mais frequência, exigindo atenção especializada e um olhar científico para entender e proteger esses visitantes sazonais.
Este período sazonal é marcado pela intensificação das atividades de monitoramento por parte de instituições de pesquisa. O Laboratório de Ecologia e Conservação (LEC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), responsável pelo Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) no estado, eleva sua vigilância. A detecção e o atendimento de animais encontrados na faixa de areia, seja em condições de debilidade ou óbito, tornam-se prioridade para a equipe.
Entre os migrantes esperados estão os icônicos pinguins-de-Magalhães, petréis-gigantes, lobos-marinhos das espécies Arctocephalus australis e Arctocephalus tropicalis, além de grandes baleias como as baleias-jubarte e baleias-franca. Estes animais utilizam a costa brasileira como rota ou destino em seus ciclos de vida, buscando condições ambientais mais favoráveis para sua sobrevivência e procriação.
Embora a presença desses animais seja um indicativo de ecossistemas marinhos saudáveis, nem sempre a chegada é em boas condições. Muitos indivíduos demonstram sinais de exaustão, fraqueza e, em alguns casos, apresentam marcas de interações negativas com atividades humanas. Estes encalhes, longe de serem apenas incidentes isolados, oferecem valiosas oportunidades para o avanço do conhecimento científico.
Através do estudo destes animais, pesquisadores conseguem coletar dados essenciais sobre seus comportamentos, caracterizar as dinâmicas populacionais e, fundamentalmente, identificar os fatores de risco que ameaçam a conservação dessas espécies, muitas delas em situação de vulnerabilidade ou em risco de extinção.
Ações Integradas para a Proteção da Fauna Migratória
A migração é um processo biológico complexo, impulsionado pela busca de recursos. Os animais se deslocam para encontrar áreas propícias para alimentação, reprodução e desenvolvimento de seus filhotes. No entanto, a interferência humana tem impactado severamente esses deslocamentos naturais.
Mudanças climáticas, poluição por resíduos plásticos e químicos, sobrepesca que reduz a disponibilidade de alimento, e a destruição de habitats costeiros são apenas alguns dos fatores que adicionam estresse às rotas migratórias e à saúde dos animais. Compreender esses impactos é vital para formular políticas de conservação eficazes.
A coordenadora do PMP-BS/LEC-UFPR, Camila Domit, enfatiza a importância estratégica do litoral paranaense. “Somos um ponto de parada ou passagem muito importante das rotas migratórias no oceano Atlântico, e é comum observarmos a presença de diferentes espécies migradoras no litoral do Paraná durante este período. As ocorrências são sazonais, mas muitos desses animais chegam à costa em condições que demandam atenção, exigindo cuidados especializados e um olhar atento para as ações integradas entre pesquisa, gestão e sociedade para promover a conservação das espécies e o uso sustentável dos recursos marinhos”, explica.
A conservação da fauna marinha migratória é um compromisso que transcende fronteiras estaduais e nacionais. O Brasil, como signatário de importantes acordes internacionais, como a Convenção de Espécies Migratórias (CMS), tem desempenhado um papel ativo na discussão e implementação de medidas de proteção. A recente sedição da reunião da CMS em 2026 reforçou o engajamento do país em fortalecer resoluções de conservação focadas nestas espécies.
O Papel Crucial do Monitoramento e da Comunidade
O trabalho de campo realizado pelo PMP-BS/LEC-UFPR envolve uma equipe multidisciplinar que percorre diariamente as praias do litoral paranaense. O objetivo é registrar todas as ocorrências, sejam animais vivos, debilitados ou mortos. Para os indivíduos que necessitam de intervenção, o Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD) da UFPR oferece atendimento veterinário especializado.
Neste centro, os animais resgatados passam por avaliações clínicas detalhadas, exames laboratoriais e recebem suporte nutricional e tratamentos específicos. O acompanhamento rigoroso visa garantir que estejam aptos a retornar ao seu habitat natural com as melhores condições de sobrevivência. Além do resgate, os dados coletados durante todo o processo são fundamentais para pesquisas científicas e para o monitoramento contínuo da saúde das populações marinhas ao longo da costa brasileira.
A médica-veterinária Andressa Rorato, do PMP-BS/LEC-UFPR, destaca a complexidade do processo. “Muitos dos animais encontrados durante esse período chegam após percorrer milhares de quilômetros e é comum encontrarmos os indivíduos debilitados por diferentes fatores associados ao processo migratório. Por isso é importante o atendimento rápido e adequado, para aumentar as chances de recuperação e permitir que retornem ao ambiente marinho em melhores condições”, afirma.
A colaboração da sociedade civil é, sem dúvida, um dos pilares para o sucesso das ações de conservação. Ao avistar um animal marinho na praia, seja vivo ou morto, o contato imediato com as equipes de resgate é crucial. A população local, pescadores e turistas frequentemente são os primeiros a notar e reportar esses encalhes, atuando como verdadeiros “olhos” do projeto na extensa faixa de areia.
É fundamental que, ao encontrar um animal, as pessoas evitem qualquer tipo de contato direto. Manipulações indevidas, como tentar recolocar o animal na água sem orientação profissional ou oferecer alimentos e água, podem piorar significativamente o quadro de saúde do indivíduo, dificultando ou até mesmo impossibilitando o resgate e a reabilitação. Manter distância, especialmente com animais domésticos por perto, e evitar aglomerações que causem estresse ao animal são atitudes simples, mas de grande impacto.
Em caso de avistamento de animais marinhos encalhados no Paraná, a população deve acionar imediatamente o PMP-BS/LEC-UFPR através dos telefones 0800 642 33 41 ou (41) 99213-8746. A agilidade no reporte é um fator decisivo para o sucesso do resgate e para a coleta de informações que contribuem para a conservação da biodiversidade marinha. “Cada acionamento realizado pela população permite uma resposta mais rápida, contribuindo para o bem-estar dos animais, saúde ambiental e para a geração de informações que auxiliam na conservação da biodiversidade marinha”, completa Camila Domit.
O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) é uma iniciativa de grande relevância ambiental, exigida pelo licenciamento federal para as atividades de exploração de petróleo e gás natural na Bacia de Santos. Executado no Paraná pela equipe do LEC/UFPR, o projeto abrange o Trecho 6 do litoral paranaense, garantindo um olhar científico e ações de conservação para a fauna marinha que frequenta e utiliza essa importante região costeira.






