Entrelinhas da UFPR TV analisa obra “O Quinze” de Rachel de Queiroz

🕓 Última atualização em: 01/10/2026 às 13:35

Um romance publicado há quase um século continua a reverberar na literatura brasileira, servindo como espelho de um período crítico e de reflexão sobre a identidade nacional. “O Quinze”, obra de Rachel de Queiroz, escrito em 1930 quando a autora contava com apenas 19 anos, narra os horrores da seca que assolou o Nordeste brasileiro no ano de 1915. O livro se destaca não apenas pela sua força literária, mas também pela perspectiva humanizada que oferece sobre o sofrimento e a resiliência de uma população marcada pela escassez e pela migração forçada.

A obra, que se passa no cenário castelhano do Ceará, mergulha na profunda crise hídrica que levou à fome extrema, à devastação da agricultura e a um êxodo em massa. O contexto histórico da grande seca de 1915 é o pano de fundo para uma narrativa que busca ir além da mera descrição factual, adentrando o âmago da experiência humana diante da adversidade.

O romance representa uma renovação na tradição literária brasileira, oferecendo um olhar multifacetado sobre os sertanejos. Diferentemente de abordagens anteriores que poderiam retratar um comportamento passivo diante da calamidade, Queiroz confere agência e profundidade psicológica aos seus personagens. A humanização do sofrimento é um dos pilares da obra, tornando-a um documento pungente sobre as mazelas sociais e a luta pela sobrevivência.

Rachel de Queiroz se insere em um momento de efervescência literária, a chamada “década do romance”, na década de 1930. Essa geração de escritores e intelectuais utilizou o gênero para desbravar e compreender o Brasil, transformando-o em um espaço privilegiado para a reflexão sobre a realidade do país e suas complexidades.

A força da narrativa e sua relevância contemporânea

A capacidade de Rachel de Queiroz de retratar a realidade social com tamanha vivacidade e empatia faz de “O Quinze” uma obra atemporal. A autora, mesmo jovem, demonstra um domínio impressionante da linguagem e da construção de personagens, cativando o leitor e provocando uma profunda identificação com as tragédias narradas. O livro não se limita a um relato histórico, mas transcende o tempo, convidando à reflexão sobre as desigualdades e os desafios persistentes em diversas regiões do Brasil.

A crítica literária aponta a importância de “O Quinze” como um marco na redefinição da representação do sertanejo e do sertão na literatura brasileira. A obra rompe com estereótipos e oferece uma visão mais complexa e multifacetada, reconhecendo a dignidade e a capacidade de resistência diante das adversidades impostas pela natureza e pela estrutura social.

Ainda que tenha sido escrito há quase um século, os temas abordados em “O Quinze” – a vulnerabilidade social, a impacto das mudanças climáticas e a busca por dignidade – permanecem extremamente relevantes. A obra serve como um lembrete constante da necessidade de políticas públicas eficazes e de uma atenção contínua às populações mais afetadas por crises socioeconômicas e ambientais.

A Geração de Escritores e a Reinvenção do Romance

Rachel de Queiroz é um nome incontornável quando se fala da reinvenção do romance no Brasil. Sua obra dialoga com outros escritores de sua época, que juntos, moldaram a literatura brasileira do século XX. Essa geração não se contentou em imitar modelos estrangeiros, mas buscou construir narrativas que refletissem a identidade e os dilemas do país.

O impacto de “O Quinze” é tal que se tornou leitura obrigatória em processos seletivos acadêmicos, como o vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Essa escolha reforça o valor da obra como ferramenta pedagógica e como um convite à imersão em um período crucial da história e da cultura brasileira, estimulando o pensamento crítico e a compreensão da realidade nacional.

A influência de Rachel de Queiroz transcende a esfera literária. Sua trajetória como jornalista, tradutora e dramaturga, além de sua atuação como a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras e ganhadora do Prêmio Camões, solidificam seu legado como uma figura fundamental na construção da identidade cultural e intelectual brasileira. A obra “O Quinze” é, portanto, um portal para a compreensão de uma autora visionária e de um Brasil em constante transformação.

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