Um novo simulador computacional, denominado Cheias, foi desenvolvido com o propósito de mapear e prever os padrões de alagamento em Curitiba e sua Região Metropolitana. A ferramenta, concebida pelo engenheiro curitibano Thiago Gonçalves, opera diretamente no navegador web e permite a visualização detalhada do percurso da água da chuva sobre o relevo da cidade, antecipando o volume hídrico em rios e a subsequente extensão das inundações em áreas urbanas.
O sistema apresenta um painel em tempo real que classifica bairros e municípios conforme a extensão das áreas alagadas. Essa classificação inclui métricas sobre a quantidade de escolas, hospitais e quilômetros de vias afetadas. Para usuários que desejam informações mais específicas sobre sua localidade, o simulador pode indicar o momento em que o nível da água ultrapassa a marca de 30 centímetros em uma determinada rua.
A plataforma oferece diversas funcionalidades para simulação de cenários. Os usuários podem definir a localização e a intensidade de uma célula de tempestade artificial sobre um bairro específico, ou recriar eventos de chuva preexistentes com dados pluviométricos registrados. Adicionalmente, é possível executar simulações com base em previsões meteorológicas para as próximas 48 horas.
Em face da projeção de um evento de El Niño de forte intensidade, uma funcionalidade adicional compara as previsões de chuva e temperatura para os próximos seis meses com os efeitos históricos de episódios anteriores de El Niño. Essa comparação visa contextualizar o potencial impacto de um mês específico como ponto de partida para eventos de inundação de maior magnitude.
Gonçalves ressalta que, antes de conceber o Cheias, realizou uma pesquisa aprofundada sobre as ferramentas de previsão de inundações já existentes para a região. Ele identifica que soluções como o Flood Hub do Google focam em inundações de rios de lenta progressão, mas não contemplam o fenômeno mais dinâmico e súbito de alagamentos em áreas urbanas densamente povoadas, característica marcante de Curitiba.
Outro ponto levantado pelo desenvolvedor é a limitação dos dados de inundação disponíveis. O Plano Diretor de Drenagem do estado, por exemplo, dispõe de informações sobre áreas de risco de inundação por rios, porém estes dados estão em formato PDF e datam de 2002. Embora pesquisas anteriores tenham mapeado os riscos em bacias isoladas, faltava uma ferramenta interativa que respondesse a perguntas como: “Se chover 80 milímetros em uma hora, para onde a água se dirigirá?” e exibisse a resposta de forma visual e acessível.
O prognóstico do Centro de Previsão Climática da NOAA mantém o alerta para o fenômeno El Niño até março de 2027, com uma probabilidade de 83% de que o período de outubro a dezembro seja o mais intenso desde 1950. A influência do El Niño no Sul do Brasil geralmente se traduz em primaveras e verões mais chuvosos, o que gera apreensão na população de Curitiba sobre os impactos em suas residências e rotinas.
Diante deste cenário, a segunda pergunta que o simulador Cheias busca responder vai além da análise de eventos pontuais de chuva intensa. Ele foca em avaliar as condições climáticas gerais de um determinado mês e como elas podem interagir com eventos de precipitação, transformando um período chuvoso em um potencial gatilho para inundações de larga escala.
Aplicações e Detalhes Técnicos do Simulador Cheias
O simulador Cheias disponibiliza uma gama de funcionalidades que permitem investigações detalhadas sobre cenários de alagamento. O usuário pode buscar por endereços específicos, bairros, escolas e hospitais, obtendo informações precisas sobre o tempo em que a água ultrapassou 30 cm, o pico de inundação, o nível de perigo e um gráfico temporal da profundidade da água.
A ferramenta permite o compartilhamento de simulações através de links, que preservam as configurações de chuva, localização e ponto de interesse. É possível também exportar visualizações em formato de imagem ou vídeo, acompanhadas de informações de tempo e legenda. A escolha do tipo de chuva é flexível, com opções que variam de temporais sazonais a inundações de longa duração, simuladas em células de tempestade de pequena escala que se movem com o vento, replicando a dinâmica das chuvas de verão na região.
Um dos modos de operação permite reviver eventos passados, como o temporal de 18 de fevereiro de 2025, utilizando dados de pluviômetros e marcando os pontos de alagamento reportados pela Defesa Civil, contrastando-os com os resultados da simulação. A previsão para as próximas 48 horas é feita com base em dados hora a hora de 16 pontos da região.
O simulador também incorpora a avaliação de perigo, combinando profundidade e velocidade da água para classificar o risco de acordo com diretrizes internacionais. Essa classificação é representada por cores, indicando zonas de perigo para pedestres e veículos. Além disso, a ferramenta quantifica o impacto, informando o número de instituições essenciais (escolas, hospitais, etc.) e a extensão de vias afetadas.
A capacidade de ajuste de parâmetros urbanos, como a absorção do solo, a capacidade das galerias pluviais e o nível inicial dos rios, confere ao simulador um alto grau de realismo. A função “Próximos meses” permite projetar cenários de inundação com base nas condições de solo e rios de meses específicos, sejam eles previstos como mais chuvosos ou comparáveis a eventos históricos como o de 1997.
Implicações para a Gestão de Riscos e Políticas Públicas
O desenvolvimento do simulador Cheias representa um avanço significativo na gestão de riscos de desastres em áreas urbanas, especialmente em um contexto de mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes. A capacidade de prever com precisão a dinâmica dos alagamentos permite que órgãos públicos, como a Defesa Civil, planejem ações preventivas e de resposta de forma mais eficiente.
A disponibilização de informações detalhadas sobre o risco de inundação para a população em geral também é um componente crucial. Ao permitir que cidadãos consultem o potencial de alagamento em suas próprias ruas, o simulador fomenta uma maior conscientização sobre os riscos e incentiva a adoção de medidas de preparação individual e comunitária. Isso pode incluir o planejamento de rotas de fuga, a proteção de bens e a participação em iniciativas locais de adaptação.
A integração de dados históricos e previsões futuras no simulador oferece uma base sólida para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes. Informações sobre a frequência, intensidade e áreas mais vulneráveis a alagamentos podem subsidiar o planejamento urbano, a revisão de códigos de construção, investimentos em infraestrutura de drenagem e a alocação de recursos para mitigação e adaptação. A análise de cenários de longo prazo, considerando a influência de fenômenos como o El Niño, é fundamental para a construção de cidades mais resilientes.
A natureza interativa e a acessibilidade do simulador são elementos que reforçam seu potencial transformador. Ao democratizar o acesso a informações complexas sobre hidrologia urbana e meteorologia, o Cheias empodera não apenas gestores públicos, mas também a sociedade civil, promovendo um diálogo mais informado sobre os desafios e as soluções para a gestão de desastres naturais em ambientes urbanos.






