Curitiba se prepara para gigante estação de esgoto lixo zero modelo mundial

🕓 Última atualização em: 23/04/2026 às 17:22

Curitiba consolida sua posição de vanguarda em saneamento e sustentabilidade com a implementação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) CIC Xisto, que adota o inovador modelo de wetland, um sistema de tratamento biológico que emprega vegetação aquática. Essa iniciativa, conduzida pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), representa um marco, posicionando a unidade como uma das maiores do mundo em volume de atendimento populacional, projetada para tratar os efluentes de 787 mil habitantes da bacia do Iguaçu.

A tecnologia wetland, classificada como Solução Baseada na Natureza (SBN), utiliza plantas macrófitas para promover a depuração dos dejetos. Em abril, a fase de plantio de 110 mil mudas em uma área de 25 mil m² deve ser concluída. Essas plantas desempenham um papel crucial na transformação do lodo, o resíduo sólido do esgoto, em biossólido, um subproduto com potencial para se tornar um recurso valioso.

O projeto se alinha com o movimento global Zero Waste, buscando maximizar a reutilização de materiais e minimizar o descarte. A Sanepar tem investido em transformar aquilo que antes era considerado um passivo ambiental, o lodo, em um ativo, com a possibilidade de geração de biogás e fertilizantes.

A eficiência do processo de wetland é notável: aproximadamente 98% do lodo é consumido no local por microrganismos e pelas próprias plantas. Os 2% remanescentes, após a mineralização, configuram-se como biossólidos, matéria orgânica com características de húmus, passível de ser utilizada como fertilizante ou na produção de energia.

“Reduzir o descarte de resíduos é um dos grandes desafios de todas as cidades do mundo. Ao investir neste modelo baseado em soluções da natureza, a Sanepar reafirma seu compromisso com a preservação do meio ambiente”, declarou o diretor-presidente da Sanepar, Wilson Bley, destacando a importância estratégica dessa abordagem.

Um ecossistema em prol do saneamento

A ETE CIC Xisto não é a primeira experiência da Sanepar com a tecnologia wetland. A companhia já opera unidades similares em diversas cidades paranaenses. Contudo, a nova estação em Curitiba, localizada no bairro Tatuquara, distingue-se por sua escala de atendimento, sendo uma das maiores do mundo neste modelo específico. A empresa Gel Engenharia é responsável pela execução da obra.

Guilherme Goetze, gerente de projeto da Gel Engenharia, ressalta que o foco foi em maximizar a capacidade de atendimento populacional, não apenas a extensão territorial. “A Sanepar aceitou o desafio de criar, em Curitiba, não a maior wetland em área, mas, em termos de atendimento à população, a maior que existe”, afirmou.

O funcionamento das wetlands, também conhecidas como “jardins de mineralização”, baseia-se na criação de um ecossistema onde plantas macrófitas de grande porte, com elevado consumo de nutrientes, e microrganismos atuam em conjunto. As plantas absorvem os nutrientes essenciais presentes no esgoto, enquanto os microrganismos realizam a decomposição da matéria orgânica.

Esse método traz benefícios ambientais significativos, como a redução da emissão de dióxido de carbono (CO2) proveniente do processo de tratamento e o aumento da liberação de oxigênio (O2) pelas extensas áreas plantadas. Para a Sanepar, essa abordagem se traduz em maior resiliência econômica, com menor consumo de energia elétrica e menor necessidade de produtos químicos.

A eficiência do sistema vem sendo validada desde outubro de 2025, por meio de um jardim mineralizador piloto. A espécie escolhida, a Arundo donax, popularmente conhecida como “cana-do-reino” ou “cana-da-roça”, demonstrou desenvolvimento excepcional, ultrapassando dois metros de altura em apenas cinco meses, um indicativo do sucesso da área de testes.

O processo de purificação do lodo ocorre em ritmo natural. As plantas, que podem atingir até quatro metros de altura, permanecerão em atividade por aproximadamente oito anos. Murilo Cunico, coordenador de Obras da Sanepar, explica: “No modelo de wetland, deixamos de usar energia ou produtos químicos no lodo resultante do tratamento de esgoto. A própria planta faz a decomposição orgânica na zona de raízes”.

A ampliação da ETE CIC Xisto inclui a implantação de biorreatores combinados anaeróbio-aeróbio (BRC), que aprimoram a qualidade da água devolvida ao Rio Barigui. Essa etapa eleva em quase três vezes a capacidade de tratamento, passando de 490 para 1.368 litros por segundo, preparando a infraestrutura para o crescimento futuro da Região Metropolitana de Curitiba.

As obras, que totalizam um investimento de R$ 375 milhões em crédito verde, foram financiadas pela linha Eco Invest, vinculada ao Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (FNMC) e com apoio do Banco do Brasil. A iniciativa foi reconhecida pela instituição financeira como um modelo de investimento sustentável, sendo apresentada inclusive na COP 30, em Belém.

Um legado de inovação em saneamento

Desde 2020, a Sanepar tem priorizado o investimento em tecnologias SBN. A primeira wetland da companhia foi instalada em Santa Helena, seguida por outras em Assis Chateaubriand, Vera Cruz do Oeste, Cambará, Cornélio Procópio e Joaquim Távora. Atualmente, o modelo está em fase de implantação em Serranópolis, Saudade do Iguaçu, Turvo, Pinhão e Palotina, demonstrando a expansão e o compromisso contínuo da empresa com soluções ambientais.

Essa estratégia de investir em wetlands não apenas melhora a qualidade do saneamento, mas também fortalece a resiliência ambiental e a sustentabilidade econômica. Ao converter resíduos em recursos e ao utilizar processos naturais, a Sanepar se alinha às metas globais de desenvolvimento sustentável e consolida sua reputação como líder em inovação no setor de saneamento básico no Brasil.

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