Plantas transformam lixo em saneamento em Curitiba

🕓 Última atualização em: 24/04/2026 às 00:25

A busca por soluções sustentáveis no tratamento de resíduos ganha força com a implementação de tecnologias inovadoras em saneamento básico. Em Curitiba, um projeto ambicioso na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) CIC Xisto promete revolucionar a forma como o lodo é processado, transformando um passivo ambiental em um ativo valioso para a sociedade e o planeta.

A iniciativa, liderada pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), foca na instalação de sistemas de wetland, também conhecidos como jardins de mineralização. Esses ecossistemas artificiais utilizam plantas aquáticas e microrganismos para purificar o lodo, um subproduto complexo do tratamento de esgoto.

A proposta se alinha diretamente aos objetivos de redução de resíduos e à filosofia do “lixo zero”, buscando a reutilização integral dos materiais. A ETE CIC Xisto, em fase de expansão, ampliará sua capacidade de atendimento para cerca de 787 mil habitantes, tornando-se uma das maiores unidades do mundo neste modelo específico de tratamento.

O plano envolve o plantio de aproximadamente 110 mil mudas de macrófitas em uma área de 25 mil metros quadrados. Essas plantas são selecionadas por sua capacidade de absorver nutrientes presentes no lodo, desempenhando um papel crucial na decomposição da matéria orgânica.

A Ciência por Trás da Natureza

O funcionamento de um sistema wetland baseia-se na sinergia entre a flora e a fauna microbiana. As macrófitas, como a espécie Arundo donax (cana-do-reino), cultivada em um projeto piloto bem-sucedido, possuem um “apetite” notável por nutrientes e metais pesados. Ao serem depositadas no sistema, elas iniciam um processo de absorção e mineralização.

Enquanto as plantas retiram os compostos indesejados e a matéria orgânica, uma comunidade diversificada de microrganismos, presente no substrato e nas raízes das plantas, atua na decomposição acelerada. Este processo natural é fundamental para transformar o lodo em biossólido, um material estabilizado e com características semelhantes ao húmus.

Essa abordagem não apenas minimiza o descarte, mas também reduz significativamente a necessidade de energia elétrica e o uso de produtos químicos, frequentemente empregados em métodos de tratamento convencionais. A Sanepar tem investido em tecnologias baseadas em soluções naturais (SBN) desde 2020, com a instalação pioneira de wetlands em diversas outras localidades do estado.

O impacto ambiental positivo se estende à qualidade do ar. As áreas verdes criadas pelas wetlands contribuem para a redução da carga de gás carbônico e para o aumento da liberação de oxigênio, promovendo um microclima mais saudável.

Perspectivas Econômicas e Ambientais

A reutilização do biossólido gerado pelas wetlands abre um leque de oportunidades econômicas. Este material pode ser empregado como fertilizante orgânico na agricultura, enriquecendo o solo e reduzindo a dependência de adubos sintéticos. Além disso, o biossólido pode servir como matéria-prima para a geração de biogás, fonte de energia térmica ou elétrica.

A iniciativa da ETE CIC Xisto representa um marco de resiliência econômica para a Sanepar. A captação de R$ 375 milhões em crédito verde, através da linha Eco Invest e com o apoio do Banco do Brasil, demonstra o reconhecimento financeiro e ambiental do projeto. Este modelo de investimento em sustentabilidade foi, inclusive, apresentado como referência na COP 30, em Belém.

A capacidade de tratamento da ETE CIC Xisto será ampliada com a incorporação de biorreatores combinados anaeróbio-aeróbio (BRC), otimizando a qualidade da água devolvida ao Rio Barigui. Essa infraestrutura modernizada prepara a região metropolitana para o crescimento urbano e industrial, assegurando a sustentabilidade hídrica e ambiental a longo prazo.

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