A forma como instituições financeiras enxergam e financiam a conservação da natureza está em transição. Longe de ser uma mera obrigação regulatória ou um gasto não produtivo, a biodiversidade começa a ser posicionada como um ativo estratégico, capaz de gerar valor econômico e mitigar riscos. Essa mudança de paradigma foi tema central no 4º Encontro de Negócios e Biodiversidade da Coalizão LIFE, realizado recentemente em Foz do Iguaçu.
O evento reuniu um ecossistema diversificado, composto por representantes do setor empresarial, instituições financeiras, órgãos públicos e especialistas. O objetivo principal foi debater como a integração da biodiversidade nas estratégias de negócios e na gestão de riscos pode impulsionar a mobilização de investimentos em conservação.
O Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) marcou presença destacada, evidenciando seu compromisso com a pauta socioambiental. A participação do banco focou em suas iniciativas inovadoras e na exploração de novos mecanismos financeiros para a preservação ambiental.
O Papel do Setor Financeiro na Valorização da Biodiversidade
Uma das discussões mais relevantes girou em torno da construção de demanda por créditos de biodiversidade, explorando os desafios e as oportunidades inerentes a este mercado emergente. A proposta é transformar a conservação em um negócio sustentável, que recompense financeiramente aqueles que atuam na proteção de ecossistemas.
O BRDE apresentou suas experiências com o Banco Verde e o Fundo Verde de Equidade. Essas iniciativas visam gerar impactos socioambientais e climáticos positivos na Região Sul do Brasil. A estratégia se desdobra em três frentes principais: a redução do impacto ambiental das próprias operações do banco, o apoio financeiro não reembolsável a projetos de conservação e o estímulo a operações de crédito com foco em impacto positivo.
Entre 2021 e 2024, o Fundo Verde destinou R$ 25,6 milhões, dos quais R$ 19,25 milhões já foram aplicados em projetos no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com a contrapartida de parceiros, o montante investido em iniciativas de conservação atinge R$ 36 milhões.
Um exemplo concreto dessa atuação é a parceria firmada entre o BRDE e a Secretaria do Desenvolvimento Sustentável do Paraná. O projeto tem como objetivo fomentar créditos de biodiversidade a partir de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). O banco se compromete a adquirir créditos gerados por essas áreas privadas de conservação, com um aporte de até R$ 2 milhões.
O edital já selecionou sete RPPNs em municípios paranaenses. A iniciativa prevê a aquisição de até 1.600 créditos anuais por reserva, com valores progressivos nos primeiros dois anos, condicionados à implementação de planos de ação para a conservação.
“Quando uma instituição financeira passa a olhar a biodiversidade como ativo estratégico, ela ajuda a criar mercado, reduzir riscos e dar escala a soluções que antes ficavam restritas à agenda ambiental”, ressaltou um dos representantes do BRDE durante o evento. O desafio, segundo ele, é transformar bons projetos em instrumentos financeiros capazes de remunerar quem conserva e orientar a carteira de crédito para atividades com impacto positivo.
A complexidade da agenda de créditos de biodiversidade exige método, mensuração e uma articulação robusta entre os diversos atores envolvidos. A clareza de critérios técnicos, a certificação, a governança e a existência de demanda qualificada são fundamentais para a consistência desse mercado. Instituições financeiras como o BRDE desempenham um papel crucial em aproximar a conservação, o desenvolvimento produtivo e a inovação financeira.
A Coalizão LIFE e a Integração da Biodiversidade nos Negócios
A Coalizão LIFE de Negócios e Biodiversidade é um movimento que busca aproximar o setor empresarial da agenda de conservação. Reúne instituições comprometidas em incorporar a biodiversidade nos modelos de negócio, nas cadeias de valor e nas estratégias de ESG (Ambiental, Social e Governança).
Lançada em dezembro de 2022, durante a COP-15 de Biodiversidade da ONU, em Montreal, a coalizão alinha-se às metas do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. O BRDE é membro da Coalizão LIFE desde 2023, sendo o primeiro banco a aderir ao grupo.
Os encontros promovidos pela coalizão têm sido espaços importantes para o debate sobre a economia verde, a inserção da biodiversidade na agenda empresarial e o desenvolvimento de instrumentos financeiros inovadores. A formação de demanda por ativos de biodiversidade e o papel dos governos e do setor financeiro nesse processo são pontos constantes de discussão.
Para o BRDE, a participação ativa na Coalizão LIFE fortalece uma agenda que articula financiamento, inovação e sustentabilidade. Além do projeto de créditos de biodiversidade no Paraná, o banco tem apoiado iniciativas em diversas frentes, como restauração e conservação ambiental, segurança hídrica, descarbonização industrial, resiliência climática, saneamento, economia circular e inclusão produtiva.
A estratégia do BRDE inclui a adoção de metodologias como o Life Key e a Matriz BSE. Essas ferramentas são utilizadas para aprofundar a análise da carteira de clientes financiados, disseminar boas práticas e fortalecer a conexão entre a agenda de biodiversidade e o Sistema Financeiro Nacional, bem como instituições internacionais de fomento.
A visita técnica ao Itaipu Parquetec, durante o evento em Foz do Iguaçu, exemplifica o foco em inovação. O parque tecnológico atua como um ecossistema que integra instituições de ensino, empresas e órgãos governamentais, impulsionando projetos de pesquisa aplicada, tecnologia e desenvolvimento territorial com foco em sustentabilidade.






