A crescente vulnerabilidade de comunidades costeiras a eventos climáticos extremos tem impulsionado a adoção de estratégias proativas de gestão de riscos no Paraná. A simulação de cenários de inundação em áreas de risco, como a realizada recentemente no bairro Jagatá, em Antonina, reflete uma mudança de paradigma na resposta a desastres, priorizando a preparação e a resiliência comunitária diante de previsões climáticas preocupantes.
O evento simulado em Jagatá, uma comunidade de 23 residências situada em uma área de mangue historicamente suscetível a variações de maré, mobilizou cerca de 50 profissionais de diferentes esferas governamentais e voluntários. A iniciativa envolveu a Defesa Civil estadual e municipal, Corpo de Bombeiros, secretarias municipais e a Rede Estadual de Emergência de Radioamadores (REER), demonstrando um esforço coordenado para testar e aprimorar planos de contingência.
A importância dessas ações se agrava em face das projeções sobre a intensificação de fenômenos como o El Niño, que podem desencadear eventos climáticos severos no estado. O capitão Dhieyson Budernik, coordenador do 6º Núcleo de Atuação Regional da Defesa Civil Estadual, ressaltou a relevância do simulado para avaliar a capacidade de acesso e a operacionalidade dos planos em uma situação real de alagamento, visando otimizar o atendimento à população.
A escolha específica do bairro Jagatá para o exercício não foi aleatória. Sidnei Train, secretário municipal da Defesa Civil, explicou que um levantamento recente indicou a carência de informações detalhadas sobre a localidade, que já enfrentou episódios de isolamento de moradores devido à combinação de chuvas intensas e marés elevadas. Essa lacuna na informação reforçou a necessidade de priorizar a preparação dos residentes para futuras ocorrências.
O exercício, que teve início pela manhã, incluiu o acionamento das equipes de resgate e a simulação de atendimento a uma pessoa com mobilidade reduzida, com o suporte de uma ambulância. O tenente Alexandre de Moraes, comandante do Corpo de Bombeiros de Antonina, destacou que a atividade permitiu mensurar o tempo de resposta das equipes e conhecer o terreno, fatores cruciais para uma atuação mais efetiva em casos de emergência.
O plano de contingência prevê que os moradores se dirijam a um ponto de encontro preestabelecido, de onde ônibus são acionados para o transporte até um abrigo seguro. Na escola municipal, onde o abrigo foi simulado, os participantes receberam cadastramento e palestras com orientações sobre como identificar sinais de alerta e adotar medidas preventivas, um passo fundamental para a autoproteção e para a colaboração em situações de risco.
Ações de resposta e a importância da participação comunitária
A integração entre as forças de segurança e a comunidade é um pilar essencial na construção de planos de resposta eficazes. A participação ativa dos moradores, como a do trabalhador do porto Carlos Alberto, que compartilhou sua experiência em eventos climáticos adversos, é fundamental para validar e aprimorar os procedimentos de emergência. O relato de gratidão pelas orientações demonstra o impacto direto dessas ações na percepção de segurança e na capacidade de auxílio mútuo dentro da comunidade.
A capacidade de resposta em desastres não se limita à atuação governamental; ela é amplificada quando os cidadãos estão informados e preparados. A colaboração em ações de resgate e a disseminação de informações corretas entre vizinhos podem significar a diferença entre a segurança e a tragédia, especialmente em áreas com histórico de incidentes climáticos severos.
Lições do passado e o desafio de Antonina
Antonina carrega cicatrizes de eventos climáticos extremos, como o desastre de 2011, conhecido como “Águas de Março”. Naquela ocasião, o volume de chuvas causou inundações, alagamentos e deslizamentos que afetaram milhares de pessoas, desalojaram centenas e deixaram um rastro de destruição em residências e infraestrutura básica, como o abastecimento de água e energia elétrica.
A memória desses eventos serve como um alerta constante e um motivador para investimentos em infraestrutura e políticas públicas voltadas à adaptação e mitigação de riscos. A preparação atual, incluindo os simulados em áreas de risco, busca construir uma nova realidade para Antonina, onde a comunidade esteja mais apta a lidar com as inevitáveis mudanças climáticas.





