Vovó de Curitiba troca crochê por ultramaratonas e mira 1 mil quilômetros

🕓 Última atualização em: 04/06/2026 às 21:07

Em um feito que desafia os limites físicos e a percepção comum sobre o envelhecimento, Eliete Augusta Marques, de 56 anos, conhecida carinhosamente como “Vovó Eliete”, concluiu recentemente uma ultramaratona de 126 quilômetros na cidade de Guaraqueçaba, no litoral do Paraná. A prova, realizada no dia 30 de maio, viu a atleta não apenas completar o percurso em 21 horas, mas também superar todos os competidores homens com mais de 50 anos, demonstrando uma resiliência e determinação excepcionais.

A jornada de Eliete no universo das corridas começou há 14 anos, mas sua incursão nas ultramaratonas se intensificou mais recentemente. A primeira maratona oficial foi em 2017, seguida pela primeira ultramaratona em 2018. Desde então, ela tem ampliado consistentemente suas distâncias, acumulando uma vasta experiência em provas de longa duração.

Seu objetivo atual é audacioso: completar uma prova de 1.000 quilômetros antes de completar 60 anos. Para isso, ela planeja participar em 2028 da 1000KM Brasil, em São Lourenço (MG). Antes disso, a atleta visa consolidar sua preparação com a prova de 500 quilômetros da mesma ultramaratona no ano anterior, além de competir em percursos de 150 e 200 quilômetros nos meses vindouros.

“Meu objetivo é chegar nos quatro dígitos antes dos 60 anos de idade. Quero fazer uma corrida de mil quilômetros”, declarou Eliete, detalhando sua ambição. A ideia de realizar a prova de 1.000 quilômetros é vista por ela como o encerramento de um ciclo importante em sua carreira esportiva.

A decisão de se dedicar às corridas, especialmente às ultramaratonas, surgiu como uma necessidade de mudança de estilo de vida. Aos 42 anos, enquanto exercia a podologia, profissão que abraça há três décadas, Eliete enfrentava o acúmulo de peso e a pressão alta, consequências de uma rotina sedentária e de longas jornadas de trabalho.

Inicialmente, buscou outras modalidades esportivas sem sucesso, até que a corrida se apresentou como uma alternativa. Aderiu a um projeto da Prefeitura de Curitiba, que a introduziu à prática na Praça Agostinho Legroy. A superação das primeiras dificuldades, como completar uma volta inteira na praça, foi motivada pelo apoio coletivo.

“O professor Ernesto falava ‘vai dar uma volta na praça’. Não conseguia nem dar uma volta inteira no começo, mas todo mundo ficava incentivando. Dei a primeira volta na praça, depois corri 5 quilômetros, dez, 21, 42… e nunca mais parei”, relembra com orgulho. A corrida se tornou uma ferramenta de autoconhecimento e resolução de problemas pessoais, descrita por ela como uma atividade “transformadora”.

A Estrutura Familiar e Nomes com a Letra “E”

A vida de Eliete é marcada por uma curiosa coincidência familiar que se estende por gerações. Nascida em Fênix, no Paraná, mudou-se para Curitiba e ali conheceu seu marido, Edson, há 43 anos. O encontro, ocorrido através do “Disque Amizade” e a interação com a prima dele, resultou em um casamento rápido, com a união oficializada em apenas três meses.

A tradição de nomes com a letra “E” começou com a chegada de sua primeira filha, Erica, aos 19 anos. Subsequentemente, vieram Ellen, Evelyn e Emelyn, todas seguindo o mesmo padrão. Essa escolha se perpetuou com seus seis netos: Enrique, Eduarda, Eloá, Erick, Ethan e Ester. A predileção pela letra “E” também se manifestou nos irmãos de Eliete, que incluem Eliane, Eliabe, Elisangela e Elianete.

Eliete explica que a decisão de nomear os filhos com a letra “E” remonta a uma promessa de seus pais, José e Maria, em retribuição à sua recuperação de uma doença. “Os meus pais se chamavam José e Maria, um pernambucano e uma mineira. Mas não sei porque eles resolveram colocar o nome dos filhos tudo com E… O meu nome eles escolheram por ser bíblico. Eu fiquei doente, eles fizeram uma promessa e aí deram esse nome. Depois, eu quis seguir com isso e dei a todos os meus filhos nomes que começam com a letra E, o que depois aconteceu também com os netos”, elucidou.

A prática de uma rotina rigorosa de treinos é fundamental para que Eliete mantenha sua alta performance. Ela percorre, semanalmente, um mínimo de 200 quilômetros, complementados por duas sessões de musculação. Os treinos de corrida ocorrem às segundas, quartas e sextas-feiras, com o percurso mais longo, que pode variar entre 70 e 100 quilômetros, reservado para as quartas-feiras.

Uma particularidade notável na trajetória de Eliete é a ausência de lesões. Ela atribui essa consistência física, em parte, aos treinos de musculação direcionados para a corrida, mas também a uma abordagem peculiar durante as provas. “Eu não tenho dor nenhuma, mas acho que é porque eu não me esforço para ir rápido. Odeio correr rápido! Eu gosto de aproveitar, de ver tudo, conversar com as pessoas, parar para tirar foto…”, revela, enfatizando sua preferência por uma corrida mais contemplativa e social.

O Poder Transformador da Corrida e a Busca por Ciclos

A corrida transcendeu para Eliete a mera atividade física, tornando-se um espaço de introspecção e autoconhecimento. Ela descreve a experiência como um momento de estar consigo mesma, onde pensamentos fluem livremente e questões pessoais são frequentemente abordadas e solucionadas.

Essa capacidade da corrida de proporcionar clareza e promover o bem-estar mental é um dos pilares que a impulsionam a continuar. Ao buscar completar a prova de 1.000 quilômetros, Eliete não visa apenas um recorde pessoal, mas sim o encerramento simbólico de uma fase de sua vida esportiva, marcando o fim de um ciclo de grandes desafios físicos.

A ideia de “fechar ciclos” é um conceito recorrente em sua filosofia. Aos 56 anos, ela sente que é o momento de reavaliar suas metas e, ao alcançar o objetivo dos mil quilômetros, considera encerrar sua participação em ultramaratonas de longa distância. Essa decisão reflete uma maturidade esportiva e uma compreensão profunda sobre a finitude e renovação em todas as esferas da vida.

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