Um ambicioso projeto de restauração de ecossistemas costeiros no Litoral do Paraná entra em sua segunda fase, com a meta de recuperar até 15 hectares de manguezais e brejos salinos na Baía de Antonina. A iniciativa, que se estenderá até 2030, visa não apenas a recuperação ambiental, mas também o fortalecimento da capacidade dos municípios em lidar com as mudanças climáticas, a mobilização de comunidades pesqueiras e a ampliação da educação ambiental na região. Este esforço contínuo busca mitigar os impactos ambientais e socioeconômicos em uma área de grande vulnerabilidade.
Os ecossistemas de mangue e brejo salino desempenham um papel crucial na captura de carbono, atuando como poderosos sumidouros que auxiliam na regulação do clima global. Além disso, funcionam como barreiras naturais contra eventos extremos, protegendo o litoral de erosão, ressacas e inundações. No Brasil, que possui uma das maiores extensões desse bioma, a conservação destes ambientes é fundamental para a sustentabilidade da pesca artesanal, a segurança alimentar de inúmeras famílias e a preservação da rica biodiversidade local.
O projeto, apoiado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, adota uma abordagem integrada, abrangendo restauração ecológica, adaptação às mudanças climáticas, articulação territorial, ações socioambientais e comunicação. A primeira etapa, realizada entre 2022 e 2025, já promoveu a restauração de 6,55 hectares de manguezais e brejos salinos, com a importante remoção de mais de 650 toneladas de braquiária-d’água, uma espécie exótica invasora que vinha suplantando a vegetação nativa.
A ameaça global aos manguezais é substancial. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) alerta que metade desses ecossistemas pode entrar em colapso até 2050, impulsionada pelo aumento do nível do mar, pela urbanização desordenada e por outros efeitos das mudanças climáticas. Essa realidade torna ainda mais premente o trabalho de conservação e restauração em regiões como o litoral paranaense.
Fortalecendo a Resiliência Costeira e o Conhecimento
Os estudos realizados durante a primeira fase do projeto forneceram um diagnóstico detalhado da vulnerabilidade climática nos sete municípios do litoral paranaense. Estes levantamentos foram essenciais para a produção de conhecimento e para a mobilização de pessoas e instituições, estabelecendo uma base sólida para as ações futuras.
As pesquisas revelaram que todos os municípios da região enfrentam algum grau de vulnerabilidade. Cidades como Matinhos, Pontal do Paraná, Guaratuba e Paranaguá lidam com riscos de erosão costeira e inundações. Já municípios estuarinos, como Antonina, Morretes e Guaraqueçaba, enfrentam desafios mais agudos relacionados a inundações e impactos diretos sobre seus manguezais e outros ecossistemas sensíveis.
A espécie invasora braquiária-d’água representa um sério obstáculo ao equilíbrio ecológico. Sua rápida proliferação impede o desenvolvimento da vegetação nativa, crucial para a fixação de sedimentos, fornecimento de alimento para a fauna e o processamento de matéria orgânica. A restauração, portanto, não se trata apenas de recuperar um espaço, mas de reestabelecer funções ecológicas vitais para a saúde do ecossistema.
A estratégia de restauração empregada é a regeneração natural assistida (RNA). Após a meticulosa remoção da braquiária-d’água, a vegetação nativa é estimulada a se recuperar de forma autônoma, sem a necessidade de replantio. Este método tem demonstrado sucesso, com um aumento significativo na diversidade de aves nas áreas recuperadas, que saltou de 27 para 50 espécies registradas. A presença do bicudinho-do-brejo, um importante indicador de ecossistemas conservados, reforça a eficácia das intervenções.
A nova fase do projeto aprofundará esses estudos, com monitoramento contínuo da flora e da avifauna e a identificação de áreas prioritárias para novas intervenções. Especialmente em Paranaguá, serão elaborados estudos para a restauração de bosques urbanos e diretrizes específicas para manguezais, culminando em um plano de ação abrangente.
Engajamento Comunitário e Ações de Educação Transformadora
Um dos pilares da segunda fase é a retomada do diálogo com as prefeituras dos sete municípios litorâneos. Serão promovidas oficinas específicas para cada cidade e uma oficina intermunicipal, reconhecendo que a problemática das mudanças climáticas transcende os limites geográficos e exige soluções colaborativas.
Além das oficinas, os municípios interessados contarão com acompanhamento técnico contínuo. O projeto oferecerá suporte em diversas frentes, como orientações técnicas, esclarecimento de dúvidas, divulgação de editais relevantes e compartilhamento de ferramentas atualizadas para a gestão climática.
Uma novidade significativa é a implementação da ação “Manguezal Limpo”. Esta iniciativa envolverá pescadores artesanais de Antonina e Paranaguá em atividades mensais de coleta de resíduos e remoção da braquiária-d’água. O projeto responde diretamente às demandas apresentadas pelas comunidades pesqueiras, que relembraram experiências bem-sucedidas de programas anteriores.
Os pescadores participantes receberão capacitação em conservação de manguezais, poluição marinha, uso de equipamentos de segurança e técnicas de controle da espécie invasora. Os resíduos coletados serão destinados à Associação dos Catadores de Reciclável do Km 04 de Antonina, que também receberá apoio para fortalecimento institucional e gestão dos materiais.
A educação ambiental será ampliada com a produção de materiais pedagógicos sobre mudanças climáticas, biodiversidade e conservação de ecossistemas costeiros. Kits didáticos e lúdicos serão distribuídos e utilizados por professores das redes municipais de Antonina e Matinhos, com acompanhamento da aplicação em sala de aula, visando formar uma nova geração consciente da importância da preservação ambiental.
O projeto Olha o Clima, Litoral! é uma iniciativa do Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais, uma organização com mais de 40 anos de atuação na conservação da biodiversidade e defesa do meio ambiente no Brasil. Mais informações podem ser encontradas em maternatura.org.br/climalitoral e maternatura.org.br.






