Um projeto inovador em Curitiba tem transformado lixo eletrônico em oportunidade para mulheres em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa, batizada de Tech Girls, não apenas desvia resíduos tecnológicos do descarte inadequado, mas também oferece capacitação profissional em áreas de alta demanda, como programação de software e manutenção de hardware. Desde sua fundação em 2017, o programa já formou cerca de 650 mulheres, abrindo portas para o mercado de trabalho e para o empreendedorismo.
A metodologia do curso é estruturada em cinco módulos, com duração de dois meses e aulas semanais. A abordagem é prática e imersiva, permitindo que as participantes lidem diretamente com os equipamentos que chegam ao projeto. O objetivo é desmistificar a tecnologia e empoderar as mulheres com conhecimentos técnicos e habilidades de negócios.
Um dos pilares do Tech Girls é a coleta de resíduos sólidos. Doações de empresas e indivíduos alimentam o ciclo do projeto, garantindo o material necessário para as aulas. Essa prática não só beneficia as participantes, mas também contribui significativamente para a sustentabilidade ambiental, ao dar uma nova vida a componentes eletrônicos que poderiam se tornar poluição.
A fundadora, Gisele Lasserre, destaca a importância da abordagem multifacetada do curso. “Começamos com a arte em lixo eletrônico para despertar a criatividade e depois avançamos para o empreendedorismo digital, manutenção de notebooks e a parte de software”, explica Lasserre. Ao final da capacitação, as alunas recebem um computador recuperado em sala de aula, um incentivo tangível para suas novas jornadas.
O programa não exige pré-requisitos de experiência, focando em mulheres que buscam transição de carreira ou que se encontram em situações de vulnerabilidade social. Essa característica inclusiva é fundamental para democratizar o acesso à educação tecnológica.
O Impacto na Inclusão e no Mercado de Trabalho
A presidente do Instituto Autentica’S Brasil, Luisanyelis Muscarneri, que apoia mulheres migrantes em Curitiba, participou do Tech Girls para conhecer a fundo o programa e incentivar suas assistidas. “Eu queria ver como era o desenvolvimento do curso para poder acompanhar as meninas da minha ONG”, relata Muscarneri.
Ela ressalta o valor prático do aprendizado, especialmente nas aulas sobre marketing digital. “As informações sobre Instagram e o uso do Canva foram muito importantes, pois agregam valor aos empreendimentos”, comenta. A experiência foi tão positiva que ela indicou outras mulheres de sua comunidade para participar do programa.
O primeiro módulo, “Arte em Lixo Eletrônico”, introduz as participantes à transformação de componentes de computadores em peças de arte, como bijuterias e objetos decorativos. Esta etapa criativa visa tornar os primeiros contatos com o projeto mais lúdicos e acessíveis, integrando a economia criativa ao processo educativo.
Essas peças únicas já ganharam destaque em eventos de moda, como o Brasil Eco Fashion Week e o Boqueirão Fashion Week em Curitiba, demonstrando o potencial artístico e comercial das criações das alunas.
Perspectivas de Carreira e Ampliação do Alcance
O projeto foca em preparar as participantes para uma inserção efetiva no mercado de tecnologia. “Temos uma alta taxa de procura por perfis como os das nossas alunas, pois a indústria de TI enfrenta uma escassez de profissionais qualificados, especialmente mulheres”, afirma Gisele Lasserre. Essa demanda crescente cria um cenário promissor para as formandas.
A equipe de instrutores é composta por profissionais atuantes na área de tecnologia, o que garante que o ensino seja pautado por experiências reais e pelas demandas atuais do mercado. Essa conexão com o setor produtivo é um diferencial crucial.
Embora tenha nascido em Curitiba, o Tech Girls expandiu sua atuação para outras cidades brasileiras, como São Paulo e Joinville. O projeto também está em constante evolução, com novas edições planejadas para incluir adolescentes de ambos os gêneros e grupos específicos, como mulheres com mais de 60 anos, ampliando seu impacto social.
A iniciativa busca continuamente formas de alcançar mais pessoas e diversificar seus públicos, adaptando-se às necessidades de diferentes faixas etárias e contextos sociais. Essa flexibilidade e visão de futuro são essenciais para o sucesso e a perenidade do projeto no cenário de inclusão digital e social.






