Pinus do Brasil ganha nova vida e se transforma em energia em eletropostos

Em Tunas do Paraná, Região Metropolitana de Curitiba, os resíduos da indústria madeireira de pinus estão sendo transformados em energia elétrica. A Madeireira Maracanã implementou uma solução inovadora onde cascas, serragem e fragmentos de madeira, antes descartados, agora alimentam uma termelétrica, gerando eletricidade e vapor para o próprio complexo industrial. A iniciativa estende seu alcance ao mercado de mobilidade elétrica, com a energia produzida sendo utilizada para abastecer pontos de recarga para veículos elétricos.

A história do pinus no Brasil remonta a mais de um século, inicialmente com fins ornamentais. Sua versatilidade o levou a se tornar matéria-prima essencial para setores como papel e celulose, mobiliário, painéis de madeira e embalagens. Atualmente, o país conta com mais de cem espécies de pinus, com forte concentração nas regiões Sul e Sudeste, totalizando cerca de 1,7 milhão de hectares plantados, principalmente nas espécies Pinus taeda e Pinus elliottii.

A transformação dos resíduos em energia começou como uma resposta a um desafio logístico e ambiental da própria Madeireira Maracanã. A destinação inadequada do material gerado pós-corte das toras era um problema recorrente. Após avaliar diferentes alternativas, a implantação de uma usina termelétrica se mostrou a solução mais viável e economicamente vantajosa.

O Ciclo de Transformação: Da Tora à Eletricidade

O processo de geração de energia na Maracanã inicia-se com o aproveitamento integral da madeira. Após o corte das toras para a produção de insumos comercializáveis, o material que sobra é direcionado para a termelétrica. Este resíduo, predominantemente na forma de cavacos, serragem e cascas, é o combustível para a geração de energia.

O material é transportado por esteiras até um silo de armazenamento. De lá, roscas alimentadoras o conduzem continuamente para a fornalha da caldeira. O controle rigoroso da temperatura na fornalha, que opera entre 750°C e 780°C, é crucial para a eficiência do processo.

A queima da biomassa libera o calor necessário para transformar água em vapor. Este vapor de alta pressão é o responsável por movimentar as turbinas, que por sua vez acionam os geradores elétricos. Estima-se que cerca de duas toneladas de biomassa sejam consumidas para a produção de 1 MWh de energia injetada na rede elétrica.

A eficiência do processo é notável, com um aproveitamento praticamente integral da matéria-prima. O professor Rui Maggi, da UFPR, explica que a queima de madeira é um processo que libera a energia armazenada na celulose, com as cinzas — resíduo mínimo de aproximadamente 0,5% do volume total — tendo ainda potencial de aproveitamento.

Energia que Impulsiona a Mobilidade Elétrica

A capacidade instalada da termelétrica permitiu que a Maracanã investisse na expansão de suas operações. Uma das vertentes desse investimento foi a instalação de eletropostos para veículos elétricos. Essa iniciativa surgiu da necessidade de otimizar a comercialização da energia gerada, uma vez que a empresa encontrou dificuldades em expandir sua base de clientes por meio de outros canais de venda.

A energia produzida na termelétrica da Maracanã é injetada na rede da Copel (Companhia Paranaense de Energia). O sistema de créditos energéticos é o mecanismo que viabiliza o aproveitamento dessa energia em pontos de recarga de veículos elétricos, inclusive em locais mais distantes da planta geradora, como em Curitiba. A compensação de créditos garante que a energia consumida pelos veículos elétricos seja coberta pela geração da biomassa.

O gerenciamento dessa energia injetada na rede se dá por meio de medição e controle, permitindo que a Maracanã utilize créditos para abater o consumo de suas unidades consumidoras vinculadas. Isso significa que, embora o veículo elétrico receba energia da rede de distribuição local, a geração da madeireira contribui para o balanço energético geral, compensando o consumo.

Sustentabilidade e Inovação na Bioeconomia

A iniciativa da Maracanã não apenas resolve um problema de gestão de resíduos, mas também se insere em um contexto maior de bioeconomia e aproveitamento de recursos renováveis. O pinus, uma espécie adaptada ao Brasil há mais de 120 anos, demonstra sua relevância não apenas pela produção de madeira para diversos setores industriais, mas também como fonte de energia.

A operação da termelétrica visa a sustentabilidade em diversas frentes. Além de gerar eletricidade a partir de resíduos, parte do vapor produzido é reutilizado para secar a madeira beneficiada. Embora o processo demande água para reposição e resfriamento, a captação é realizada de fontes controladas, como um lago e poços artesianos.

Os impactos ambientais da geração de energia a partir de biomassa, como emissões atmosféricas, são mitigados por meio de equipamentos como multiciclones, que retêm partículas. A queima de biomassa é considerada um processo em ciclo fechado de carbono, pois a quantidade de CO2 liberada na atmosfera é teoricamente a mesma absorvida pelas árvores durante seu crescimento, um conceito conhecido como balanço neutro de carbono quando bem gerido.

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