Duas mulheres negras relatam ter sido alvo de uma abordagem discriminatória em uma unidade do supermercado Condor, em Curitiba. O incidente, que teria ocorrido na última quinta-feira (23 de julho), ganhou notoriedade após relatos nas redes sociais. Um boletim de ocorrência foi registrado na Polícia Civil do Paraná, que iniciou investigação sobre a denúncia de racismo.
As vítimas, Thays Matos Silva e Valéria Batista de Souza, afirmam que desde a entrada no estabelecimento foram seguidas por quatro seguranças. Segundo o relato, a vigilância ostensiva se manteve durante toda a permanência na loja, inclusive nos corredores. Ao chegarem ao caixa, as mulheres teriam sido cercadas pelos seguranças, impedidas de se mover e forçadas a abrir suas bolsas.
A situação escalou com a exigência de que abrissem suas bolsas para revista, sob a alegação de que era um procedimento padrão do mercado. A revista, descrita como corporal, ocorreu publicamente, diante de outros clientes. Os seguranças teriam, ainda, solicitado notas fiscais de itens encontrados nas bolsas das consumidoras, mesmo que estes não fossem produtos vendidos naquela unidade do supermercado.
As denunciantes caracterizam o ocorrido como racismo, argumentando que a abordagem desproporcional se deu unicamente pela cor de suas peles. Elas expressam o desejo por justiça e responsabilização, solicitando acesso às imagens das câmeras de segurança para a investigação. Relatos de outras pessoas que teriam vivenciado situações semelhantes têm sido recebidos pelas vítimas, indicando um padrão de comportamento.
A Rede Condor emitiu um comunicado reconhecendo o constrangimento vivenciado pela cliente e admitindo que a abordagem não seguiu os procedimentos internos da empresa. A rede afirmou lamentar o ocorrido e que está apurando o caso com a devida seriedade para a adoção das medidas cabíveis. Ressaltou, ainda, seu posicionamento contra qualquer forma de discriminação, preconceito ou racismo.
Aprofundamento nas implicações do racismo estrutural no varejo
O episódio em Curitiba joga luz sobre a persistência do racismo estrutural em ambientes de consumo. A forma como a segurança de um estabelecimento comercial é direcionada pode, involuntariamente ou não, perpetuar estereótipos negativos associados a grupos raciais específicos. Isso gera um ciclo de desconfiança e hostilidade, impactando diretamente a experiência do consumidor negro.
A vigilância ostensiva e as revistas invasivas, quando aplicadas de maneira seletiva, configuram um microagressão racial, minando a dignidade e a liberdade de ir e vir. A alegação de “procedimento padrão” frequentemente mascara práticas discriminatórias, transformando o espaço de compra em um ambiente de insegurança e assédio para minorias raciais.
A falta de treinamento adequado para equipes de segurança e atendimento pode ser um fator determinante para a ocorrência de tais incidentes. É crucial que as políticas internas de varejistas contemplem não apenas a prevenção de furtos, mas também a sensibilização e o combate a preconceitos inconscientes.
O Paraná e o panorama do racismo no Brasil
Os dados recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam um cenário preocupante para o Paraná. O estado figura como o terceiro com maior número de registros de injúria racial e racismo no país, demonstrando a magnitude do problema em âmbito estadual.
Em 2025, o Paraná contabilizou 4.882 ocorrências relacionadas a esses crimes, evidenciando um aumento expressivo em comparação com anos anteriores. Essa estatística, que inclui tanto a injúria racial quanto o crime de racismo em sua forma mais ampla, é um chamado urgente à reflexão sobre políticas públicas e ações de combate à discriminação racial.
O panorama nacional é igualmente alarmante, com estados como São Paulo e Santa Catarina liderando os registros. A alta incidência desses crimes em diversas regiões do Brasil sublinha a necessidade de um esforço contínuo e abrangente para desconstruir o racismo em todas as suas manifestações e garantir a igualdade de direitos e tratamento para todos os cidadãos.






