O mercado ilegal representa um prejuízo bilionário para a indústria brasileira, com um terço das empresas reportando perdas significativas nos últimos dois anos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que essas atividades ilícitas geraram uma perda de receita líquida de vendas estimada em R$ 39 bilhões. A pesquisa revela um cenário preocupante onde a concorrência desleal e a segurança precária impactam diretamente a sustentabilidade dos negócios.
O estudo indica que 50% das empresas afetadas pela ilegalidade apontam a perda de receita bruta como o principal impacto negativo. Em seguida, a perda de participação de mercado afeta 30% delas, enquanto 28% relatam o aumento nos custos com segurança. Cerca de 31% das empresas tiveram suas operações prejudicadas, sendo que médias e grandes empresas (32% e 33%) foram mais atingidas do que as pequenas (25%).
A vulnerabilidade das pequenas e médias empresas a essas práticas é notável. Com estruturas financeiras mais enxutas e menor capacidade de absorver custos, elas se tornam alvos mais fáceis da concorrência desleal e enfrentam maiores dificuldades em implementar mecanismos de proteção eficazes. O impacto econômico, embora em percentual menor sobre a receita líquida anual em comparação com as grandes, é mais sentido em seus balanços.
O roubo de carga desponta como o tipo de crime mais frequente contra as indústrias, afetando diretamente 32% delas. Em 2025, apenas no Rio de Janeiro, o prejuízo estimado pela Federação das Indústrias do Estado (Firjan) foi de R$ 314 milhões, com uma média de oito caminhões roubados diariamente. Este dado sublinha a urgência de medidas para coibir essa modalidade criminosa que paralisa a logística e encarece a produção.
A não conformidade de produtos desafia a indústria
Um segundo ilícito de grande relevância é a não conformidade de produtos com regulamentações técnicas, citada por 29% das empresas. Essa prática abrange a comercialização de bens que não atendem às normas de segurança, qualidade ou certificação exigidas por lei. A ausência de selos obrigatórios, rótulos incorretos ou descumprimento de padrões técnicos representam um risco para o consumidor e distorcem o mercado.
Para empresas de médio porte, a não conformidade de produtos surge como o principal problema, atingindo 33% delas. Entre as pequenas empresas, o índice é de 26%. Essas práticas não apenas comprometem a saúde pública e a segurança do consumidor, mas também configuram uma violação das regras de mercado, prejudicando a indústria que opera dentro da legalidade e investe em conformidade.
É crucial entender que os gastos com prevenção e segurança pela indústria para combater esses ilícitos superam as perdas diretas. O levantamento da CNI aponta que os investimentos em segurança patrimonial e cibernética equivalem a 1,1% da receita líquida, totalizando R$ 68,5 bilhões. Este montante é significativamente maior do que os R$ 39,1 bilhões perdidos diretamente para as atividades ilegais.
Apesar dos investimentos, a cibersegurança ainda é um ponto de atenção. A pesquisa revela que 77,1% das empresas brasileiras destinam apenas 1% ou menos de seu orçamento a ações de cibersegurança, mesmo diante da crescente sofisticação das ameaças. A necessidade de um papel mais estratégico para a segurança digital no combate às ilegalidades é um alerta importante.
Fortalecimento da fiscalização e inteligência como caminhos
Diante desse cenário, 77% das empresas apontam o aumento da fiscalização e controle como a medida essencial para combater os efeitos das ilegalidades. A inteligência para identificar e desarticular esquemas criminosos é vista como eficaz por 46% dos empresários, enquanto o endurecimento da legislação é defendido por 36%.
O fortalecimento dos órgãos de segurança pública estaduais, como as polícias Civil e Militar, é considerado prioritário por 41% das empresas, dada a atuação em mercados locais e vias de transporte. A Polícia Federal (38%) e a Receita Federal (36%) também aparecem na lista de instituições que necessitam de maior suporte para o enfrentamento de esquemas complexos e a proteção de fronteiras.
O combate eficaz aos ilícitos exige uma abordagem multifacetada que combine esforços governamentais e empresariais. A ampliação da capacidade fiscalizatória, o investimento em tecnologia e inteligência, e o aprimoramento do arcabouço legal são fundamentais para criar um ambiente de negócios mais justo e seguro para toda a indústria nacional.
Em suma, a pesquisa da CNI não apenas quantifica os prejuízos econômicos causados pela ilegalidade, mas também aponta os caminhos a serem trilhados para mitigar seus efeitos. A colaboração entre os setores público e privado é indispensável para garantir a sustentabilidade e a competitividade da indústria brasileira.






