Manejo do fogo e parceria com UFPR impulsionam adaptação climática na Serra do Tombador

🕓 Última atualização em: 07/08/2026 às 14:02

Em um cenário de intensificação das secas e com a proximidade de eventos climáticos extremos como o El Niño, a gestão de áreas naturais em regiões de Cerrado tem se tornado um ponto crítico para a preservação da biodiversidade. Uma reserva privada em Goiás, a Serra do Tombador, com seus expressivos 8.730 hectares, tem implementado uma abordagem inovadora e cientificamente embasada para mitigar riscos de incêndios florestais: o manejo integrado do fogo. Essa estratégia, que utiliza a queima controlada em porções estratégicas, visa a reduzir o acúmulo de material vegetal seco, minimizando a intensidade e a extensão de incêndios destrutivos, especialmente em face de períodos de estiagem prolongada.

A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Serra do Tombador, mantida pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, exemplifica como a conservação pode ser aliada à pesquisa e a um manejo proativo. Sua importância transcende a mera preservação, posicionando-se como um modelo de adaptação climática e de gestão territorial.

O reconhecimento da importância do fogo para a dinâmica natural do Cerrado não é recente. Estudos pioneiros, como os desenvolvidos na década de 1970 pelo biólogo Leopoldo Magno Coutinho, já apontavam que a supressão total do fogo poderia levar ao acúmulo de combustível, resultando em incêndios de maior magnitude e poder destrutivo. Essa perspectiva é reforçada por pesquisas contemporâneas, como uma publicação de 2025 na renomada revista Philosophical Transactions of the Royal Society B, que correlacionou políticas de “fogo zero” a desastres ambientais no bioma. A pesquisa, que envolveu instituições internacionais, destaca a influência das mudanças climáticas e da ação humana nos regimes de fogo.

Diante desse conhecimento, a gestão da Serra do Tombador adotou, em 2021, o Manejo Integrado do Fogo (MIF). Esta prática, alinhada a um arcabouço legislativo mais recente, como a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), que entrou em vigor em julho de 2024, tem se mostrado eficaz na redução significativa de focos de incêndio. O resultado é a manutenção da unidade de conservação livre de grandes sinistros florestais, que historicamente ocorriam a cada dois ou três anos.

Estratégias de Mitigação e Adaptação Climática

A coordenação da reserva, representada por Mariana Vasques, enfatiza a riqueza da biodiversidade local, com aproximadamente 460 espécies de flora e 550 de fauna catalogadas, incluindo espécies ameaçadas, raras ou endêmicas. “O manejo é uma importante ação que visa a prevenção e o combate a incêndios, refletindo diretamente na conservação da reserva”, ressalta Vasques.

Complementando as ações de manejo do fogo, a reserva tem investido em projetos de adaptação climática. Uma parceria estratégica com o Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), tem como objetivo aprimorar o plano de gestão da reserva. O projeto “Adaptando Unidades de Conservação” busca tornar a área ainda mais resiliente a eventos climáticos extremos, incorporando modelagens de cenários futuros e refinando as bases científicas para a tomada de decisões de manejo.

Natacha Sobanski, subcoordenadora do projeto, detalha a metodologia: “O projeto parte de um diagnóstico aprofundado que inclui cenários climáticos regionais, mapeamento de risco territorial georreferenciado, imageamento de campo e uma matriz de risco climático por zona da Unidade de Conservação”. Com base nesses dados, são propostas soluções adaptadas a cada risco identificado, incluindo Soluções Baseadas na Natureza (SbN), que utilizam a própria infraestrutura ecossistêmica para mitigar riscos socioambientais.

O biólogo Paulo Eliardo Morais de Lima, analista de conservação da biodiversidade da reserva, explica a complexidade do manejo em um bioma naturalmente adaptado ao fogo, mas que também abriga ecossistemas sensíveis, como florestas de vale. “Fazemos o manejo para a redução do acúmulo de combustível antes da estação seca”, afirma. A técnica consiste na criação de um “mosaico de queimas”, onde pequenas parcelas anuais são submetidas a fogo controlado. Essa estratégia cria barreiras naturais, impedindo que focos de incêndio se tornem incontroláveis e protegem áreas mais sensíveis.

O objetivo primordial é reduzir a quantidade de combustível florestal, que é o material orgânico acumulado no solo. Ao gerenciar anualmente cerca de 20% da reserva com essa técnica, a Serra do Tombador tem obtido sucesso em mitigar o impacto de incêndios e manter a área preservada.

Segurança, Monitoramento e a Ciência como Pilar da Conservação

Além das ações de manejo do fogo, a Serra do Tombador implementa uma série de outras estratégias para a conservação. O monitoramento constante da fauna, com foco especial na mastofauna (mamíferos), é fundamental para acompanhar as populações de espécies ameaçadas que encontram refúgio na reserva.

Equipes de patrulhamento atuam de forma contínua na região para garantir a segurança do perímetro, prevenir invasões e combater crimes ambientais, como caça ilegal e desmatamento. A vigilância constante é um componente essencial da gestão integrada.

A reserva funciona também como um laboratório a céu aberto, apoiando e desenvolvendo projetos de pesquisa de longa duração. Estudos sobre o MIF, com mais de 11 anos de duração, e pesquisas sobre a relação do manejo do fogo com a herpetofauna (répteis e anfíbios) fornecem dados valiosos que refinam as técnicas de manejo anualmente. Essa dedicação à pesquisa científica consolida a ciência como o principal pilar para a preservação do Cerrado e a adaptação às mudanças climáticas.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *