A cidade de Curitiba sedia a 23ª Jornada de Agroecologia, um evento multifacetado que se estende por quatro dias e integra discussões sobre saúde pública, políticas agrícolas e cultura. O encontro, sediado no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), abrange um vasto leque de atividades, incluindo conferências, seminários, oficinas práticas, exposições e uma expressiva feira de agrobiodiversidade. A programação cultural destaca-se pela presença de artistas renomados, além de um forte componente de valorização das manifestações artísticas de origem rural e periférica.
Este evento é uma iniciativa conjunta de mais de 60 organizações sociais, movimentos populares e entidades civis, com o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento sobre agroecologia e promover um modelo de produção alimentar mais sustentável e justo. A jornada posiciona-se como um projeto político e popular, onde a dimensão cultural desempenha um papel crucial na articulação e disseminação de suas propostas.
Um dos pilares culturais da edição deste ano é o rapper brasiliense Gog, que fará uma apresentação musical e participará de um debate sobre literatura marginal. Seu trabalho é reconhecido pelo lirismo e pela crítica social contundente, refletindo as realidades das periferias brasileiras. Gog compartilhará palco com a escritora Helena Silvestre para discutir o direito à literatura e seu potencial transformador.
A programação musical também celebra os 40 anos de trajetória do Grupo D’America, conhecido por sua dedicação à integração cultural latino-americana. O grupo apresentará um repertório de músicas latinas e caribenhas, enriquecendo a diversidade sonora do evento.
A Cultura do Campo ganha destaque com a participação da Orquestra Popular Camponesa, formada por crianças e jovens de acampamentos e assentamentos do MST no Paraná. A apresentação, que marca a abertura de um dos principais seminários, evidencia o papel da arte como ferramenta de resistência e expressão cultural nos territórios.
Resistência e Vivência nos Territórios Rurais
As manifestações culturais oriundas dos assentamentos e acampamentos rurais são um eixo central da jornada, promovendo um intercâmbio rico entre diferentes saberes e práticas. A orquestra camponesa, por exemplo, representa o florescimento de talentos e a preservação da identidade cultural a partir da iniciação musical e prática orquestral nas comunidades.
A agroecologia, tema que norteia o evento, é apresentada não apenas como um modelo de produção, mas como um campo de saberes e práticas que se estende à saúde, à cultura e à organização social. A jornada oferece um espaço para a reflexão sobre como a produção de alimentos saudáveis e o cuidado com o meio ambiente se conectam à promoção de relações sociais mais equitativas.
A programação formativa inclui debates sobre crise climática, soberania alimentar e direitos de povos e comunidades tradicionais. Seminários sobre educação do campo e saúde popular aprofundam a discussão sobre modelos de desenvolvimento que priorizem o bem-estar coletivo e a preservação ambiental.
Pensadores como Leonardo Boff e João Pedro Stédile integram o painel de debatedores, trazendo suas análises sobre a importância de um sistema alimentar que seja, ao mesmo tempo, nutritivo e ecologicamente responsável. A troca de conhecimentos e experiências é incentivada através de oficinas práticas sobre produção de alimentos, manejo de sementes crioulas e estratégias de comunicação popular.
Feira da Agrobiodiversidade: Vitrine da Produção Sustentável
Um dos pontos altos do evento é a Feira da Agrobiodiversidade, considerada a maior do Paraná. Este espaço reúne mais de 130 agricultores familiares, cooperativas e comunidades tradicionais, apresentando uma vasta gama de produtos. Desde hortifrútis frescos e alimentos processados até sementes crioulas e artesanato, a feira celebra a diversidade alimentar e a riqueza cultural da agricultura familiar.
A feira não se limita à exposição de produtos, mas funciona como um ponto de encontro para a troca de experiências entre produtores e consumidores, fortalecendo a economia solidária e promovendo a conscientização sobre os benefícios da produção agroecológica.
Culinária da Terra: Sabores da Identidade Brasileira
O espaço Culinária da Terra é uma ode à rica diversidade da culinária brasileira, com foco em pratos que utilizam ingredientes agroecológicos e valorizam a cultura alimentar de diferentes regiões. Opções tradicionais como feijoada e barreado convivem com preparos que celebram frutas nativas da Mata Atlântica, oferecendo uma experiência gastronômica autêntica e saudável.
O Café Dona Ana Maria, promovido pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, dedica-se a dialogar com a sociedade sobre os impactos negativos dos defensivos agrícolas e a importância de modelos de produção que respeitem a vida. A homenagem a Dona Maria, uma ativista quilombola, ressalta a conexão entre a luta pela terra, a saúde e a alimentação.
O Túnel do Tempo, coordenado pela Escola Latino-Americana de Agroecologia Ana Maria Primavesi (ELAA), proporcionará aos visitantes uma imersão interativa pelos biomas brasileiros, enfatizando a importância da conservação da biodiversidade diante da emergência climática.
O Espaço de Saúde Popular Luiza Aparecida abordará práticas de cuidado integradas à saúde coletiva, promovendo reflexões e vivências que fortalecem o bem-estar humano e a conexão com a terra. Este espaço ressalta a visão integral da agroecologia, que abrange não apenas a produção, mas também a saúde e a qualidade de vida.
A Tenda da Agrobiodiversidade servirá como hub para oficinas, debates sobre transgênicos e organização de práticas agroecológicas em rede, culminando na tradicional partilha de sementes e frutos. A jornada, com entrada gratuita, espera atrair milhares de participantes, consolidando-se como um espaço vital para a articulação entre conhecimento popular, ciência, cultura e organização social em defesa da vida.






