Hospital do Paraná completa 100 anos transformado de “cidade-prisão” a referência no SUS

Comemora-se um marco histórico na saúde pública paranaense: o centenário do Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná (HDSP). Fundado em 1926 como Hospital São Roque, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, o HDSP evoluiu de um modelo de isolamento para se tornar um centro de excelência em atendimento especializado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A instituição, que hoje atende cerca de 500 pacientes diariamente de 56 municípios, com uma equipe de 27 médicos especialistas e mais de 200 colaboradores, celebra uma trajetória de adaptação e qualificação na assistência médica.

A história do HDSP reflete as profundas mudanças nas políticas públicas de saúde e nos tratamentos de doenças dermatológicas, especialmente a hanseníase. Inicialmente concebido sob uma perspectiva de segregação, o hospital acompanhou os avanços científicos e a humanização do cuidado, transformando-se em um polo de referência em atendimento ambulatorial.

A unidade não se limita ao tratamento da hanseníase. Seu espectro de atuação abrange pacientes com psoríase, eczema, doenças vasculares, lesões cutâneas complexas e feridas de difícil cicatrização. Para isso, dispõe de um ambulatório de feridas, o maior do estado, com uma média diária de 120 atendimentos.

As instalações foram significativamente aprimoradas, com investimentos recentes que visam a ampliação da estrutura e a qualificação dos serviços. O aumento expressivo no número de atendimentos, com um crescimento de cerca de 545% entre 2021 e 2025, demonstra a crescente demanda e a capacidade da instituição em responder a ela.

A importância do HDSP transcende a assistência direta aos pacientes. Desde 2023, a instituição consolida-se como um importante centro de formação, com a oferta de residência médica em dermatologia, autorizada pelo MEC. Essa iniciativa contribui para a formação de novos profissionais e para o avanço da especialidade.

A Evolução de um Complexo Sanitário para Centro de Referência

Em seus primórdios, o Hospital São Roque operava sob um modelo de isolamento compulsório. Essa abordagem era comum no início do século XX, quando a hanseníase era temida e pouco compreendida, levando à criação de verdadeiras “cidades-prisões” para os enfermos. O complexo possuía infraestrutura própria, incluindo áreas residenciais, cinema, correio, cemitério e até uma cadeia, refletindo a dura realidade enfrentada pelos pacientes.

Essa estrutura permitia que o hospital abrigasse aproximadamente 1.300 pacientes simultaneamente, muitos dos quais passavam a vida inteira longe de suas famílias. A transição para um modelo de assistência humanizada e integrada ao SUS marcou uma nova era, impulsionada pelos avanços no entendimento da doença e pelo desenvolvimento de tratamentos mais eficazes.

Em 1983, a gestão passou para a Secretaria de Estado da Saúde, resultando na mudança de nome para Hospital de Dermatologia São Roque. Posteriormente, em 1990, tornou-se o Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná, consolidando sua missão como centro de excelência em dermatologia.

As ações de conscientização e combate ao estigma, especialmente durante o “Janeiro Roxo”, reforçam o compromisso da instituição com o diagnóstico precoce e o acesso universal ao tratamento gratuito.

A unidade hospitalar também se destaca na promoção de mutirões voltados ao diagnóstico de lesões suspeitas de câncer de pele e ao atendimento de pacientes com problemas vasculares, especialmente nos membros inferiores. A atuação multiprofissional, envolvendo fisioterapia, nutrição, psicologia, serviço social e terapia ocupacional, garante um cuidado integral ao paciente.

Legado e Perspectivas Futuras na Dermatologia

O centenário do HDSP não é apenas uma celebração do passado, mas um momento para refletir sobre o futuro da dermatologia e da saúde pública no Paraná. A instituição tem se posicionado ativamente na produção de conhecimento e na qualificação profissional.

O programa de residência médica em Dermatologia, iniciado em 2023, é um pilar fundamental dessa estratégia. Sob a coordenação de renomados especialistas, o programa visa formar dermatologistas capacitados para enfrentar os desafios contemporâneos da especialidade, integrando ensino, pesquisa e assistência.

Além da formação de residentes, o hospital promove simpósios e capacitações, reunindo profissionais de diversas regiões para a troca de experiências e o aprimoramento de práticas clínicas. Essa interação contribui para a disseminação do conhecimento e a consolidação de redes de colaboração em saúde.

O Museu São Roque (Musar), inaugurado em 2020, é um espaço vital para a preservação da memória e a compreensão da evolução do tratamento da hanseníase. Através de documentos, objetos e registros históricos, o museu oferece um panorama da luta contra a doença e do impacto social das políticas de saúde.

O Musar se configura como o primeiro museu paranaense dedicado à história da hanseníase, ressaltando a importância da preservação do patrimônio histórico da saúde pública e da reflexão contínua sobre o estigma associado a diversas condições de saúde.

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