El Niño deste ano Alice Grimm alerta para seus efeitos em novas pesquisas da UFPR

🕓 Última atualização em: 14/08/2026 às 09:00

Um alerta significativo sobre a intensificação de fenômenos climáticos extremos, como o El Niño, foi emitido por especialistas. A nova projeção aponta para um evento de magnitude “muito forte” em 2026, com o pico de sua força esperado para o final do ano. Esses fenômenos, influenciados por alterações nas temperaturas da superfície do Oceano Pacífico, têm o potencial de desencadear uma série de eventos meteorológicos adversos em diversas partes do globo, incluindo o Brasil.

A oscilação climática conhecida como ENOS (El Niño-Oscilação Sul) é um ciclo natural que alterna entre fases de aquecimento (El Niño) e resfriamento (La Niña) das águas do Pacífico. O monitoramento constante de regiões como o ponto “Niño 3.4”, localizado a milhares de quilômetros do Brasil, fornece dados cruciais para a previsão desses eventos. A recente aceleração incomum no aquecimento das águas superficiais, observada entre abril e junho deste ano, foi o principal indicador para as projeções atuais.

O impacto do El Niño no Brasil é particularmente acentuado devido à sua vasta extensão territorial e localização geográfica. Historicamente, o evento tem sido associado a um aumento na frequência de secas e incêndios florestais nas regiões Norte e Nordeste, enquanto o Sul do país tende a experimentar maior incidência de tempestades, inundações e ciclones. A crise hídrica em diversas regiões também se agrava sob sua influência.

As projeções de um El Niño mais intenso reforçam a necessidade urgente de adaptação e planejamento. A professora Alice Grimm, referência internacional em climatologia e pesquisadora do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), tem enfatizado a importância de políticas públicas baseadas em evidências científicas para mitigar os efeitos desses eventos. Sua atuação inclui a divulgação de conhecimento científico para gestores públicos, buscando romper com o ciclo de reatividade diante de desastres climáticos.

A pesquisadora, que integrou o grupo de revisão do quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e participou de comitês científicos internacionais, como o da Organização Meteorológica Mundial (WMO), destaca a lacuna existente entre a produção científica e a implementação de ações concretas no âmbito governamental.

A Urgência de Políticas Preventivas Fundamentadas na Ciência

A repetição de desastres climáticos no Brasil expõe entraves persistentes, como a escassez de planejamento estrutural de longo prazo e a comunicação falha entre a comunidade científica e os tomadores de decisão. Levantamentos recentes, como o realizado pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná, revelaram que uma parcela significativa dos municípios paranaenses carece de estruturas básicas de Defesa Civil e sistemas de alerta para a população, evidenciando a fragilidade da infraestrutura de resposta e prevenção.

A professora Grimm tem dedicado esforços para preencher essa lacuna, apresentando dados e análises científicas em encontros com gestores públicos. A intenção é conscientizar sobre a magnitude dos riscos e promover a adoção de medidas preventivas antes que os desastres ocorram. Essa iniciativa visa transformar o atual modelo reativo em um planejamento proativo, capaz de resguardar vidas e reduzir perdas socioeconômicas.

A experiência pessoal da pesquisadora, que vivenciou os efeitos de uma enchente devastadora em 1983, serviu como catalisador para sua dedicação ao estudo dos fenômenos climáticos de teleconexão, que investigam a ligação entre eventos climáticos em regiões distantes do planeta. Essa vivência moldou sua trajetória científica e sua busca por soluções efetivas para os desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelas oscilações naturais do clima.

A ciência climática avançou significativamente na compreensão das dinâmicas naturais e das influências antrópicas no clima. No entanto, a eficácia dessas descobertas na formulação de políticas públicas no Brasil ainda é limitada. A falta de dados confiáveis e adaptados à realidade continental, somada à desinformação, dificulta a tomada de decisões estratégicas e a implementação de medidas de adaptação e mitigação eficazes.

Os Desafios da Adaptação Climática no Brasil

A desinformação é um dos principais obstáculos para a efetiva adaptação climática. A complexidade das informações científicas e a falta de canais de comunicação adequados contribuem para que a população e, em muitos casos, os próprios gestores públicos, não compreendam integralmente os riscos e a urgência das medidas necessárias. Essa barreira dificulta a criação de um consenso social e político em torno de agendas climáticas.

A necessidade de um planejamento que vá além da reação imediata aos desastres é imperativa. Investir em infraestrutura resiliente, sistemas de alerta precoce e em educação ambiental é fundamental para construir uma sociedade mais preparada para lidar com a crescente frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. A ciência oferece o conhecimento, mas a vontade política e a colaboração entre diferentes setores são essenciais para transformar esse conhecimento em ação concreta.

A transição para uma economia de baixo carbono e a adoção de práticas sustentáveis em todos os setores da sociedade são passos cruciais. O Brasil, com sua biodiversidade e recursos naturais, tem um papel fundamental a desempenhar na busca por soluções climáticas globais. No entanto, para que isso ocorra de forma eficaz, é preciso superar os desafios estruturais e priorizar a ciência como base para todas as políticas públicas voltadas para o clima.

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