Um novo documentário cinematográfico narra a vida e o legado de Roberto de Regina, figura central para o renascimento da música antiga no Brasil. O filme, dirigido por Luiz Eduardo Ozório, foi selecionado para a mostra brasileira do festival In-Edit, dedicado a documentários de arte, e já recebeu reconhecimento internacional, com um prêmio no 42º Festival de Cine de Bogotá. A obra explora a multifacetada trajetória de Regina, que, além de médico anestesista, dedicou décadas à criação de instrumentos e à formação da Camerata Antiqua de Curitiba, tornando-se um pilar para a difusão cultural na capital paranaense.
Faleceu em 2025 aos 98 anos, Roberto de Regina deixou um rastro de realizações que transcendem sua atuação profissional na medicina. Sua paixão pela música antiga o impulsionou a superar a escassez de instrumentos históricos no país. A busca por soluções o levou a montar o primeiro cravo no Brasil em 1958, iniciativa que desencadeou um movimento de resgate e valorização desse repertório.
Essa dedicação incessante culminou na fundação da Camerata Antiqua de Curitiba, que se estabeleceu como um centro fundamental para a pesquisa e a divulgação da música de períodos como o Renascimento e o Barroco. A influência de Regina se estende até os dias atuais, com a maioria dos cravos em uso no país tendo sido fabricada por ele.
O documentário promete um mergulho íntimo na vida do artista, apresentando sua rotina em um sítio no Rio de Janeiro, onde cultivava plantas exóticas, cuidava de animais e mantinha um vasto museu de miniaturas. O filme também destaca seu aprimoramento contínuo de seu cravo e os ensaios diários, revelando um homem de profunda dedicação e sensibilidade.
A importância de Curitiba na vida de Roberto de Regina é um dos pontos centrais abordados. O cineasta Luiz Eduardo Ozório ressalta o carinho com que Regina falava da cidade, o acolhimento que encontrou e o apoio recebido para o desenvolvimento da música erudita.
O Legado Instrumental e a Conexão Paranaense
Um dos objetos centrais na narrativa e na vida de Roberto de Regina é um cravo artesanal, instrumento que ele próprio construiu e doou à Camerata Antiqua de Curitiba. Atualmente, a peça encontra-se em um minucioso processo de restauro em São Paulo, com previsão de retorno ao Paraná em setembro. A fabricação deste instrumento representou um marco, sendo o primeiro cravo totalmente feito à mão no Brasil, enriquecido com pinturas e decorações internas.
A oficina de cravos que Roberto de Regina estabeleceu nos anos 1980 no Solar do Barão, em Curitiba, com o suporte do então prefeito Jaime Lerner, solidificou sua presença e impacto na cena cultural da cidade. Essa iniciativa demonstra a visão de Regina em não apenas criar, mas também em disseminar o conhecimento e a produção de instrumentos históricos.
Janete Andrade, coordenadora de Música do Instituto Curitiba de Arte e Cultura (Icac), testemunha pessoalmente o impacto de Regina. Sua primeira experiência com a arte de Regina foi em 1979, e, a partir da década seguinte, teve a oportunidade de colaborar musicalmente com ele em diversas ocasiões, inclusive no Conjunto Renascentista, um desdobramento da Camerata Antiqua. Essa relação se manteve forte mesmo após o retorno de Regina ao Rio de Janeiro.
A propriedade de Regina em Guaratiba era um palco para suas diversas facetas artísticas. Ali, ele se dedicava à montagem de réplicas em miniatura de edifícios históricos e a concertos frequentes, muitas vezes realizados à luz de velas. A construção da Capela Magdalena, onde gravou integralmente os concertos para cravo de Bach, é outro testemunho de sua paixão e de sua capacidade de criar espaços dedicados à arte.
Segundo Janete Andrade, Regina possuía uma “formação humanista muito profunda”, que se refletia em todos os seus projetos artísticos. A chapel também exibe pinturas de sua autoria, evidenciando sua habilidade como pintor, que complementava sua genialidade como músico e artesão.
A Trajetória de um Visionário e a Importância da Música Antiga
Nascido no Rio de Janeiro em 1927, Roberto de Regina trilhou um caminho singular, mesclando a prática da medicina com uma paixão avassaladora pela música antiga. Sua atuação como anestesiologista no Hospital dos Servidores do Estado, onde trabalhou até se aposentar em 1978, coexistiu com uma busca constante por instrumentos que pudessem dar vida às partituras dos séculos XV e XVI.
A descoberta de kits para montagem de instrumentos antigos em outros países foi um divisor de águas em sua jornada. Essa informação o motivou a empreender a construção de instrumentos, iniciando um movimento que mudaria a paisagem musical brasileira. A iniciativa de Regina não apenas preencheu uma lacuna, mas também inspirou outros a se dedicarem à música antiga, fomentando um verdadeiro ressurgimento.
A Camerata Antiqua de Curitiba, fruto direto dessa paixão e visão, solidificou-se como um expoente na área. Sua atuação é crucial para a preservação e difusão de um repertório que, de outra forma, poderia cair no esquecimento. A relevância do trabalho de Regina se reflete na quantidade de músicos e instituições que hoje se beneficiam de suas criações e de seu pioneirismo.





