A Universidade Federal do Paraná (UFPR) promove o evento Universo UFPR, uma feira de cursos e profissões que visa orientar estudantes em suas escolhas de carreira. Com mais de 100 graduações em exposição, o encontro gratuito, realizado em Curitiba, se apresenta como uma plataforma essencial para explorar as diversas áreas do saber e vislumbrar o futuro profissional, com destaque para as carreiras nas Ciências Humanas, Comunicação, Artes e Educação, áreas que, apesar dos avanços tecnológicos, se mostram cada vez mais cruciais.
Em um cenário global marcado pela rápida ascensão da inteligência artificial e pela digitalização acelerada de diversos setores, a reflexão sobre o papel e a relevância das carreiras tradicionalmente associadas às Humanidades e às Artes torna-se fundamental. Professores e especialistas da UFPR apontam que o diferencial dos futuros profissionais dessas áreas reside em competências intrinsecamente humanas, como a criatividade, o pensamento crítico, a sensibilidade e a capacidade de interpretação profunda.
Essas habilidades, que as máquinas ainda não conseguem replicar com a mesma profundidade e nuances, ganham proeminência em um mercado de trabalho que busca não apenas a eficiência técnica, mas também a capacidade de análise contextualizada e a conexão humana.
A adaptação dos currículos universitários é constante, buscando um equilíbrio entre a formação humanística sólida e a incorporação das novas ferramentas e demandas contemporâneas. O objetivo é preparar estudantes para um futuro onde a tecnologia é uma aliada, mas não substituta das competências essenciais à condição humana.
A Relevância das Habilidades Humanas na Era Digital
A preocupação com a substituição de profissões por tecnologias avançadas, especialmente a inteligência artificial, tem sido um tema recorrente. No entanto, acadêmicos enfatizam que áreas como Comunicação e Letras não apenas se mantêm relevantes, mas também se tornam mais importantes. O essencial é a capacidade de realizar uma análise crítica e oferecer um olhar genuinamente humano para as questões abordadas.
A Professora Marina Chiara Legroski, coordenadora do curso de Letras da UFPR, destaca que a essência da área é o questionamento e a reflexão sobre a experiência humana, algo que a tecnologia, por si só, não pode oferecer. “As Ciências Humanas são essa área em que lutamos para mostrar que a tecnologia não vai e não pode substituir tudo, apesar de estarmos imersos nelas”, afirma.
A professora ressalta que a IA pode gerar textos, mas não é capaz de vivenciar emoções ou ter experiências que são a base da criação literária e da conexão humana. “Acredito que de maneira nenhuma vamos ser suplantados, porque os seres humanos querem conexão com outros seres humanos”, opina Legroski, enfatizando a necessidade crescente de “humanizar” conteúdos e a importância da atuação de um ser humano por trás de qualquer narrativa.
No campo do jornalismo, José Carlos Fernandes, docente da UFPR, concorda que as ferramentas tecnológicas aprimoraram a apuração e a divulgação de informações, permitindo pesquisas mais amplas e comunicação instantânea. Contudo, ele alerta para o risco de descaracterização da profissão se o processo coletivo de construção da notícia for suprimido.
“Se a inteligência artificial gera um processo solitário, se ela pula essa etapa do consenso, da troca, que é a natureza da profissão, entendo que essa profissão está sendo deformada na sua origem”, alerta Fernandes. Ele sublinha que a notícia é um processo coletivo, que exige escuta, observação e contato direto com a realidade, aspectos que a tecnologia não substitui.
Em um cenário de desinformação crescente, a credibilidade e a capacidade mediadora do jornalista tornam-se ainda mais cruciais. O profissional precisa ser um guardião da verdade e um guia na navegação pelo mar de informações, desmistificando conteúdos falsos e promovendo o pensamento crítico na sociedade.
A formação universitária nessas áreas é vista como fundamental para o desenvolvimento da capacidade de agir de forma consciente e ética diante das rápidas transformações sociais e tecnológicas, preparando os estudantes para serem agentes de mudança e reflexão.
Educação e Artes: Adaptação e Inovação Constantes
Os cursos de Licenciatura e Artes também se reinventam diante das novas realidades. A educação básica, cada vez mais conectada, exige educadores aptos a mediar o acesso dos alunos às tecnologias, garantindo uma formação integral. O professor Jean Carlos Gonçalves, da UFPR, afirma que o profissional da educação é um “apaixonado por gente, por humanidade”, e que sua atuação é insubstituível na mediação entre o ser humano, a cultura e a tecnologia.
Gonçalves explica que o papel do professor como mediador é intrínseco à profissão e jamais será extinto. Ele ressalta que os educadores são essenciais na interpretação do mundo e na condução do olhar humano para as inovações. Os currículos estão sendo atualizados para melhor conectar a formação com as demandas sociais e a prática pedagógica contemporânea.
Na área das Artes, a tecnologia transformou os processos criativos, de pesquisa e de ensino. O professor Alaor de Carvalho, coordenador da Licenciatura em Artes da UFPR Litoral, cita a pandemia como um catalisador para a incorporação de novas mídias e ferramentas digitais, incluindo as IAs, nos projetos acadêmicos e artísticos. Isso amplia o alcance e as linguagens artísticas.
Carvalho menciona que muitos artistas optam por trabalhar exclusivamente no meio digital, transformando as plataformas online em um espaço para novas linguagens estéticas. “Hoje temos produções artísticas só para as redes sociais”, afirma, evidenciando a adaptabilidade da área.
No entanto, a essência da arte, segundo o professor, permanece ligada à criatividade e à sensibilidade. A arte continua a ser uma área que enriquece a vida humana, promovendo o desenvolvimento interpessoal e a capacidade de apreciar e interagir com o mundo de formas profundas e significativas, transcendendo a mera produção técnica.






