Curitiba se destaca como polo de atração de imigrantes especialista da UFPR explica o fenômeno

🕓 Última atualização em: 11/06/2026 às 11:01

Curitiba tem observado um aumento significativo na presença de imigrantes estrangeiros nos últimos 15 anos, tornando-se um dos principais receptores do país. Essa crescente diversidade é visível em diversos setores da sociedade e comércio local, impulsionando novas dinâmicas sociais e culturais. O fenômeno tem sido objeto de estudo aprofundado por acadêmicos, que buscam compreender o impacto e a importância dessa nova onda migratória para o Brasil.

A Universidade Federal do Paraná (UFPR), por exemplo, tem se destacado no apoio e na integração desses novos residentes. Há mais de uma década, a instituição promove ações voltadas para a cidadania de comunidades migrantes por meio de programas como o Política Migratória e Universidade Brasileira (PMUB) e a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, iniciativa em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Essa iniciativa se manifesta em ações concretas, como a oferta de aulas de português como segunda língua, com avisos em múltiplos idiomas nas instalações da universidade. O professor Márcio de Oliveira, titular do Departamento de Sociologia da UFPR, é uma figura central nessa pesquisa, dedicando-se a analisar as novas levas de migração internacional que chegam ao Brasil.

Historicamente, o Brasil é reconhecido como um país de emigrantes, com milhões de brasileiros residindo no exterior. No entanto, o país tem experimentado um movimento inverso, gerando um certo “espanto” diante do aumento do fluxo migratório em direção às suas fronteiras. Essa transformação tem gerado novas narrativas e desafios.

O professor Oliveira aponta que a atual leva de migrantes, especialmente da América Latina, está se estabelecendo em diversas regiões brasileiras. Embora ainda representem uma pequena parcela da população total, sua presença começa a ser notada e a ter relevância em determinados locais, chamando a atenção para as questões envolvidas.

As comunidades haitiana e venezuelana emergem como as maiores nações de estrangeiros no Brasil, seguidas por portugueses, bolivianos e argentinos. Atualmente, estima-se que cerca de 1,48 milhão de estrangeiros residam no país, com a maioria concentrada nas capitais das regiões Sul e Sudeste.

Márcio de Oliveira, que coordena o projeto de pesquisa Atlas Sociodemográfico da Migração Internacional no Paraná, financiado pela Fundação Araucária, possui um profundo conhecimento sobre a situação da imigração no estado. Seus estudos abordam as trajetórias desses grupos, seus impactos na sociedade brasileira, a inserção no mercado de trabalho, as perspectivas culturais e os conflitos, incluindo a xenofobia e o racismo, bem como um novo conceito de integração que respeita as diversas culturas.

O Legado Histórico e a Nova Realidade Migratória

O interesse do professor Márcio de Oliveira pela migração foi inicialmente despertado pela observação do “caldo étnico” presente em Curitiba, uma cidade que, apesar de seu perfil racial predominantemente branco, abriga parques e bosques dedicados a diferentes etnias. Essa constatação o levou a investigar a história da imigração no Paraná e no Brasil, especialmente no período de transição do século XIX para o XX.

A partir de 2010, o tema ganhou ainda mais relevância com o aumento do fluxo migratório, em particular a chegada dos haitianos após o trágico terremoto que abalou o país. Esse evento colocou o Haiti em evidência na mídia e transformou o Brasil em uma rota importante para a migração haitiana. Essa nova realidade migratória impulsionou o professor a aprofundar seus estudos em migração internacional a partir de 2013.

Esse período coincide com a criação do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), há pouco mais de uma década. A colaboração com o professor Leonardo Cavalcanti, coordenador do OBMigra, tem sido fundamental para a produção de dados e a realização de pesquisas conjuntas, fortalecendo o campo de estudos.

Os dados do OBMigra revelam uma tendência clara: os estados do Sul do Brasil têm se tornado o principal destino para a imigração recente. Cerca de sete em cada dez imigrantes se dirigem para essa região, englobando latino-americanos, africanos e asiáticos. Essa concentração reflete uma mudança em relação ao passado, quando São Paulo era o destino predominante.

Embora São Paulo continue sendo um importante polo de atração, a migração sul-americana, excluindo os bolivianos que mantêm forte vínculo com o estado paulista, tem encontrado nos estados do Sul um receptivo ainda maior. Santa Catarina e Paraná lideram como destinos mais atrativos, seguidos pelo Rio Grande do Sul, superando a importância de São Paulo para esse grupo específico de migrantes.

Paralelamente a essa tendência, o Paraná tem implementado políticas públicas importantes, como a criação da Agência do Migrante e o Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas. Diversas entidades religiosas, incluindo a Pastoral do Imigrante e o Cáritas, também têm desempenhado um papel crucial no acolhimento e apoio aos imigrantes.

A UFPR, por sua vez, expandiu suas iniciativas com o projeto de extensão Português Brasileiro para Migração Humanitária (PBMIH), em resposta a uma demanda da Prefeitura de Curitiba. Essa ação visa facilitar a integração linguística e social dos migrantes.

A cidade de Curitiba tem se consolidado como um centro de articulação de diversos atores interessados na questão da migração. Essa rede colaborativa inclui representantes do Tribunal de Justiça, prefeituras, universidades, associações de imigrantes e o fórum de empresas com refugiados da Fiep. Essa convergência de esforços multidisciplinares, envolvendo áreas como Psicologia, Direito, Sociologia, História, Letras, Saúde e Geografia, enriquece a abordagem do tema.

Novos Horizontes: Integração e Desafios Socioculturais

A perspectiva sociológica sobre a migração, defendida pelo professor Oliveira, vai além da análise de dados. Ela se concentra na observação da realidade dos migrantes: como estão se integrando à sociedade, as contribuições que trazem e os conflitos que podem surgir. A questão da xenofobia e do racismo, infelizmente, emerge como um desafio relevante nesse cenário.

A experiência da xenofobia, anteriormente menos presente no Brasil, tem se tornado mais notória com o aumento do fluxo migratório. A análise desses fenômenos é crucial para a construção de uma sociedade mais inclusiva e equitativa, onde a diversidade seja vista como um ativo e não como um fator de divisão. A pesquisa busca compreender as nuances dessa integração e os mecanismos para mitigar preconceitos.

A complexidade da migração internacional exige um olhar multifacetado, que contemple desde as políticas públicas de acolhimento até as dinâmicas sociais e culturais que se estabelecem no cotidiano. O trabalho do professor Márcio de Oliveira e da UFPR contribui significativamente para a compreensão e o enfrentamento desses desafios, abrindo caminhos para uma convivência mais harmoniosa e enriquecedora para todos.

Essa compreensão aprofundada é vital para o desenvolvimento de políticas públicas eficazes e para a promoção de uma cultura de respeito e valorização das diferentes nacionalidades que agora compõem o tecido social brasileiro. A busca por uma integração genuína, que celebre as identidades e promova oportunidades, é o cerne dos estudos atuais.

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