A chegada do frio em Curitiba intensifica a demanda por ações de proteção a pessoas em situação de rua. Somente durante a Operação Inverno, que teve início em meados de maio e se estende até setembro, a Central 156 da Prefeitura registrou uma média de 142 solicitações diárias de abordagem social. Este volume representa uma chamada a cada dez minutos, evidenciando a urgência e a escala do desafio enfrentado pela administração pública e pela sociedade civil.
Esses dados, obtidos a partir do Sistema Integrado de Atendimento ao Cidadão (SIAC), revelam que desde o lançamento da operação específica para o período mais frio do ano até início de julho, foram contabilizadas 8.800 solicitações. A maioria dessas requisições refere-se a adultos em situação de vulnerabilidade, totalizando 92,4% dos casos. No entanto, é relevante notar a presença de idosos (4,9%) e também de crianças e adolescentes (1,3%) entre os perfis demandados, além de 408 casos de adultos desaparecidos que necessitaram de intervenção.
O período de inverno impõe riscos adicionais, especialmente o de hipotermia, para aqueles que permanecem expostos às baixas temperaturas, que em Curitiba podem cair abaixo de 8°C. Em resposta a essa vulnerabilidade acentuada, a Fundação de Ação Social (FAS) tem ampliado seus serviços de abordagem social e de acolhimento. Já foram realizadas quinze ações intensificadas especificamente dentro da Operação Inverno, demonstrando um esforço concentrado para mitigar os efeitos do frio.
A participação da comunidade é apontada pela prefeitura como um fator crucial para a efetividade dessas ações. Cidadãos que identificam indivíduos em situação de rua em condições de risco devido ao frio são encorajados a acionar a Central 156 por meio de telefone, site ou aplicativo. As informações recebidas são então encaminhadas para as equipes da FAS, responsáveis por realizar a abordagem social e oferecer os recursos e serviços disponíveis para essa população.
Centralização das Demandas em Regiões Específicas
Uma análise detalhada das origens das solicitações de abordagem social revela um padrão de concentração geográfica significativa. Os dados da Central 156 indicam que dez bairros da capital paranaense concentram mais da metade de todas as ocorrências registradas durante a Operação Inverno. Essa concentração sugere a existência de áreas com maior visibilidade ou maior incidência de pessoas em situação de rua, demandando uma atenção territorializada.
De forma expressiva, o Centro lidera a lista com 2.074 solicitações desde o início da operação, representando 23,6% do total. Em seguida, destacam-se bairros como Jardim Botânico (630 registros), Água Verde (384), Boqueirão (380), Cajuru (353), Rebouças (347), Cidade Industrial (269), Portão (253), Bacacheri (225) e Novo Mundo (221). Juntos, esses dez bairros somam 5.136 registros, o que corresponde a 58,4% de todas as 8.800 solicitações de abordagem social entre maio e julho.
Este cenário de concentração aponta para a necessidade de estratégias de intervenção que considerem as particularidades de cada região. A gestão pública deve analisar os fatores socioeconômicos e urbanísticos que contribuem para essa distribuição, a fim de otimizar a alocação de recursos e o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes. Apenas cinco dos 75 bairros de Curitiba não registraram qualquer solicitação no período, indicando uma disseminação do fenômeno, embora com picos em áreas centrais e de maior fluxo.
A Importância da Colaboração Multissetorial e da Humanização das Políticas
A complexidade da situação de rua exige uma abordagem que vá além da simples oferta de abrigo e alimentação. É fundamental o desenvolvimento de políticas públicas que promovam a reinserção social e a garantia de direitos básicos, como saúde, educação e trabalho. A parceria entre órgãos governamentais, organizações não governamentais, iniciativa privada e a própria sociedade civil é essencial para a construção de soluções sustentáveis.
Programas que ofereçam capacitação profissional, acesso facilitado a serviços de saúde mental e o combate ao estigma associado às pessoas em situação de rua são cruciais. A humanização do atendimento, com respeito à dignidade e à autonomia dos indivíduos, deve ser um pilar central. Ações educativas para a população em geral também são importantes para desmistificar o tema e promover a empatia e a solidariedade, fortalecendo o senso de comunidade e responsabilidade compartilhada.






